O desmanche de impérios

Ucrânia e Crimeia demonstram a tendência europeia à autodescolonização

TIMOTHY, GARTON ASH, ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2014 | 02h00

Eis outra maneira de pensar o que está ocorrendo na Ucrânia: o último capítulo da autodescolonização da Europa. Após desmantelar o império soviético, no fim do curto século 20, os europeus recuaram para dar fim ao austro-húngaro e o otomano, incluindo Estados sucessores, como Iugoslávia e Checoslováquia. Agora, é o império russo pré-soviético que está sendo desafiado. Pensem no presidente da Rússia como o czar Vladimir, o Último.

O desmanche de impérios é confuso. Impérios não são feitos de blocos de Lego: desmonte-o e terá um bloco vermelho vivo aqui, um amarelo ali. O que decide qual grupo de pessoas em qual pedaço de terra se tornará um Estado? Os compartilhamentos culturais, linguísticos, étnicos e históricos têm seguramente um papel. Também têm os legados de acordos diplomáticos internacionais há muito esquecidos - e divisões territoriais internas de um império ou Estado sucessor multiétnico.

Vontade política local e liderança são cruciais. O mais importante talvez seja a sorte histórica, a fortuna que Maquiavel chama de "o árbitro de metade das coisas que fazemos". Foi esse tipo de mistura de história, vontade, habilidade e sorte que trouxe a Kosovo sua independência ainda não reconhecida universalmente.

Formei esse pensamento sobre o desmanche de velhos impérios há alguns anos quando visitei o desmantelamento do para-Estado da Transdniéstria, na margem oriental da Moldávia, perto da Ucrânia. Em sua estranha capital retrossoviética, Tiraspol, topei com uma grande estátua equestre de um herói czarista, o marechal de campo Alexander Suvorov. A estatua celebra a fundação, pelo militar, daquela cidade no fim do século 18.

Antes, em Uzhhorod, uma cidade sobre a fronteira ocidental da Ucrânia com a Eslováquia, eu havia tropeçado no autodenominado Governo Provisório do Rus Subcarpático - ou Rutênia. O primeiro-ministro era um professor de medicina que simpaticamente me recebeu num pequeno escritório no hospital local. O chanceler viera dirigindo um carro desde sua casa na Eslováquia. O ministro da Justiça fez o chá. Eu quase os persuadi a cantar seu hino nacional, que começa com "Russanos Subcarpáticos, despertai de seu sono profundo". Ridículo! - alguns poderiam dizer. Opereta!

Ocorre que a fortuna faz girar o caleidoscópio da história e, de repente, surge um país internacionalmente reconhecido chamado, por exemplo, Moldávia ou Montenegro. Seus filhos e filhas, sucumbindo ao poder normativo do fato e enganados pelos manuais de história nacionalista, crescem considerando sua condição de Estado como coisa líquida e certa.

Subversivamente, as fronteiras de velhos impérios, então, ressurgem nos mapas eleitorais das novas democracias, como se traçadas com tinta invisível. Os domínios dos impérios austro-húngaro e alemão, no século 19, brilham em laranja, os dos impérios russo e otomano, em azul. Na Ucrânia, na Romênia, na Polônia, partidos e cores variam, mas o fenômeno é o mesmo.

Os liberais gostam de articular princípios universais para a soberania e a autodeterminação de seres humanos. Eles se metem num atoleiro quando se trata de povos. Por que os kosovares têm o direito a autodeterminação, mas os curdos, não? Se Escócia, por que não Catalunha? Se Catalunha, por que não Padânia? Padânia é o nome proposto pela Liga Norte para uma Itália do norte independente.

Não há nenhuma necessidade histórica nesses resultados, e nenhuma justiça universal, mas duas coisas deveríamos aprender de uma experiência de mais de um século de autodescolonização da Europa.

Primeiramente, quando um povo tem um Estado, tende a não querer abrir mão dele. Não é por acaso que o número de países-membros da ONU continua aumentando e não diminuindo.

Esperando nos bastidores estão os integrantes da Organização das Nações e Povos Não Representados (UNPO, na sigla em inglês). Listados entre eles estão os crimeios tártaros.

Ainda mais crucial é a segunda lição. Violência gera violência. O uso da força sempre traz consequências inesperadas. O czar Vladimir pode abocanhar de volta o domínio da Crimeia, mas suas ações reforçarão a independência da Ucrânia. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DE ESTUDOS

EUROPEUS NA UNIVERSIDADE

DE OXFORD

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