O despertar árabe e Israel

Netanyahu tem motivos para preocupar-se com a Primavera Árabe na região, mas não pode se abster de agir diante de um despertar palestino em seu quintal

É JORNALISTA, ESCRITOR, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, ESCRITOR, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2011 | 03h04

Israel enfrenta o maior desgaste de sua situação estratégica desde sua fundação. Hostilizado por seu antigo aliado, a Turquia, suspeita que o Irã, seu arqui-inimigo, esteja desenvolvendo a bomba nuclear. Os dois países mais fortes com os quais tem fronteiras - Síria e Egito - estão mergulhados na revolução. Os dois vizinhos mais fracos - Gaza e o Líbano - são controlados pelo Hamas e pelo Hezbollah.

Foi neste contexto que o premiê Binyamin Netanyahu compareceu na Knesset, na semana passada, para afirmar que o despertar árabe provocará o "retrocesso" do mundo árabe, e está se transformando numa "onda islâmica, antiocidental, antiliberal, anti-israelense, antidemocrática". Neste momento, seria imprudente ceder parte do território aos palestinos, ele disse: "Não sabemos quem acabará com qualquer pedaço de território de que eventualmente possamos abrir mão".

Netanyahu teria afirmado que, quando aconselhou o presidente Barack Obama e outros líderes ocidentais a tomar cuidado ao apoiar o levante contra o então presidente do Egito, Hosni Mubarak, disseram-lhe que ele não compreendia a realidade: "Hoje eu pergunto, quem é que não compreendia a realidade?" A análise de Netanyahu dos perigos com que Israel se defronta está correta, e a situação poderá se agravar ainda mais. O que está errado é o seu diagnóstico quanto a como as coisas se desenrolaram, e também sua prescrição do que será preciso fazer a respeito - e estes pontos obscuros também poderão se tornar perigosos para Israel.

Seu diagnóstico: desde o começo, as autoridades israelenses insistiram que Obama contribuiu para pressionar a saída de Mubarak em vez de salvá-lo. Absurdo. Os ditadores árabes foram derrubados pelo seu povo; não havia como salvá-los.

Não se pode menosprezar o temor de Israel de que os islâmicos tomem o poder nos países que estão ao seu redor. Mas esta é uma possibilidade concreta precisamente por causa dos últimos 50 anos de ditadura árabe, durante os quais somente os islâmicos conseguiram se organizar nas mesquitas, enquanto na arena política não era permitido criar partidos democráticos, seculares, independentes.

A receita de Netanyahu é abster-se de agir. Entendo que, neste período de incertezas, Israel não queira ceder parte do território a um movimento palestino dividido. O que não entendo é o motivo para abster-se de agir. Israel tem um despertar árabe exatamente em seu quintal, na pessoa do premiê Salam Fayyad, da Autoridade Palestina.

A melhor defesa de Israel está em fortalecer o fayyadismo - até mesmo cedendo aos serviços de segurança palestinos novas responsabilidades a fim de aumentar a sua legitimidade. Isso não só contribuiria para estabilizar o próprio quintal de Israel, como também lançaria os alicerces da solução de dois Estados e de melhores relações com o povo árabe. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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