O despertar dos jovens de Israel

Ataque do Hamas a um kibutz reacendeu a resistência israelense e fez com que a juventude redescobrisse as tragédias de seus antepassados

DANIEL, GORDIS, BLOOMBERG NEWS, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2014 | 02h02

Ao atacarem o kibutz Nahal Oz, em julho, os terroristas de Gaza não tinham ideia de que reavivariam a determinação dos jovens de Israel. Quase 60 anos atrás, o então ministro da Defesa, Moshe Dayan, elogiou Nahal Oz. Até pouco tempo atrás, muitos jovens nunca tinham ouvido falar dele.

Em abril de 1956, Roi Rotberg, coordenador de segurança do kibutz, tinha 21 anos. Naquele dia, estavam programados quatro casamentos no kibutz e Rotberg patrulhava a área quando foi sequestrado por terroristas e levado a Gaza. Mais tarde, a ONU conseguiu a devolução de seu corpo, que tinha sinais de tortura. Poucos deixaram de notar a semelhança com a morte do tenente Hadar Goldin, também arrastado para Gaza.

Dayan, que conhecia Rotberg, preferiu fazer ele mesmo o elogio. Num breve pronunciamento, tirou duas conclusões. Primeiro, que os israelenses precisavam compreender as frustrações dos habitantes de Gaza: "Não vamos lançar a culpa nos assassinos. Por que deveríamos menosprezar o ódio que eles têm de nós? Por oito anos eles estão em campos de refugiados e, diante de seus olhos, transformamos as terras e os povoados onde eles moraram em propriedade nossa."

Na época, Israel - um mero Estado nascente - não controlava Gaza. Aqueles campos de refugiados não eram seus, mas os israelenses reconheciam o sofrimento árabe. Hoje, os israelenses não compreendem menos o ódio dos moradores de Gaza e angustiam-se com as perdas civis.

Dayan tentou nos preparar para isso. "Sem o capacete de aço e o fogo de canhão, não conseguiremos plantar uma árvore ou construir uma casa", disse. "Não vamos nos iludir sobre o ódio que enche a vida de milhares de árabes que estão ao nosso redor."

Nos últimos anos, muitos israelenses se esqueceram disso. Foi o Hamas que os lembrou. Jovens que leram as referências na imprensa ao discurso de Dayan não puderam deixar de se lembrar de como as coisas mudaram pouco e como o sacrifício é importante para preservar o que a geração de seus avós construiu.

Eu fui a um casamento na semana passada, em Jericó. Antes de o noivo quebrar o copo, seu pai observou que o ritual é designado para garantir que os judeus não comemorem em excesso. Mesmo em nossa maior alegria, nos lembramos das tragédias de nosso passado.

Essa noite, porém, o pai disse que recordar tragédias não era desafio, já que dezenas de soldados haviam morrido nos últimos dias. Naquela noite, disse ele, o desafio era encontrar força em nós mesmos para celebrar e renovar o compromisso com o futuro. Pessoas assentiram, algumas choraram. Casais deram-se as mãos. Então, o noivo quebrou o copo, a banda tocou e a multidão dançou até tarde. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É VICE-PRESIDENTE DO SHALEM COLLEGE EM JERUSALÉM

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