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Plano da oposição venezuelana é promover 'invasão' de ajuda humanitária para reduzir resistência de militares fiéis a Maduro e ampliar dissidências nas Forças Armadas

Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2019 | 18h31

Caro leitor,

A coisa vai ficar tensa na nossa vizinhança. Ou melhor: já está, mas pode piorar. A oposição venezuelana marcou para sábado, dia 23, uma espécie de Dia D para a entrada de ajuda humanitária num país onde falta tudo. O plano é fazer uma “invasão” simultânea de comida e de remédios por três ou quatro pontos da fronteira. Com isso, espera-se reduzir a resistência dos militares fiéis a Nicolás Maduro e ampliar as dissidências nas Forças Armadas.

O regime chavista recusou a ajuda humanitária oferecida pelos EUA. Os carregamentos de comida e remédio foram bloqueados em Cúcuta. A ruptura do bloqueio é, na descrição dos opositores venezuelanos, uma metáfora do que pode acontecer com o principal apoio de Maduro: os militares. A operação logística foi anunciada pelo autodeclarado presidente, Juan Guaidó, como mostramos aqui. Em reação, o chavismo espalhou que os alimentos da ajuda internacional estão envenenados, passou a distribuir alimentos na fronteira e fez promessas aos militares para manter seu apoio, o que é replicado pelos Estados Unidos.

O Dia D será um teste importante. Ninguém sabe dizer o que acontecerá. Mas uma coisa é certa: Maduro não deixará o poder facilmente, como admite a oposição. Outra certeza: o presidente dos EUA, Donald Trump, não aceitará uma derrota na Venezuela. E acenou com uma ação com 5.000 militares, o que não foi rejeitado por Guaidó. Nos últimos dias, o clima ficou mais tenso quando Cuba denunciou a movimentação de tropas americanas no Caribe.

Mas a ação armada não conta com o apoio dos militares brasileiros. O ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, é contra o uso de tropas em território venezuelano. Ele diz que o maior risco é o agravamento da crise e do fluxo de imigrantes em busca de ajuda em Roraima. E, se isso acontecer, segundo o general, o Brasil não fechará sua fronteira.

O programa brasileiro de acolhida aos venezuelanos é reconhecido na comunidade internacional como um caso de sucesso. O chanceler Ernesto Araújo foi convidado a falar sobre ele durante uma polêmica conferência sobre o Oriente Médio, liderada pelos Estados Unidos. Apesar disso, o Brasil deixou o Acordo de Migrações da ONU no início deste ano.

A participação brasileira na entrega de ajuda foi discutida pela representante de Guaidó em Brasília, María Teresa Belandria. A “embaixada” de Guaidó no Brasil funcional em uma sala comercial emprestada por um amigo brasileiro. María Teresa já se reuniu com o chanceler Ernesto Araújo, com Azevedo e Silva e com o ministro da Saúde, Henrique Mandetta. Nesta semana, deverá viajar para Roraima.

A situação de Maduro piora a cada dia, como mostrou o editor Rodrigo Cavalheiro no primeiro capítulo desta Supercoluna e virou assunto no Fórum Econômico Mundial, em Davos, como comenta o correspondente Jamil Chade neste podcast. Depois dos protestos do dia 13, a situação tende a piorar com o fim dos estoques de gasolina, segundo alertou ao Estado o assessor do partido Voluntad Popular, Manuel Avendaño.

A solução ideal para a crise seria um entendimento entre governo e oposição. Mas nem o papa Francisco parece acreditar nisso, como escreveu em carta enviada a Maduro. A ONU se ofereceu como mediadora. Um grupo de países europeus e latino-americanos, chamado Grupo de Contato, também fez um esforço pelo diálogo. O Brasil não participou porque, na visão de Araújo, a iniciativa partiu de um pressuposto errado: que Maduro está no mesmo patamar de Guaidó. Para o chanceler brasileiro,  a esquerda terá de engolir a queda de Maduro. Se o chavista cair, haverá todo um país a ser reconstruído. A começar pela economia, que hoje convive com uma inflação inimaginável. Uma a ideia é aplicar lá um plano de estabilização parecido com o Real, como explica a colunista Monica de Bolle.

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