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Eliana Aponte/AP
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O dia em que os cubanos perderam o medo; leia análise

Apesar das queixas já serem antigas, observamos algo novo nas manifestações de domingo: o seu alcance

Javier Corrales*, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2021 | 05h00

Inesperadamente, os cubanos tomaram as ruas no domingo. Eram dezenas de milhares pedindo liberdade e comida. É difícil imaginar um diagnóstico mais sucinto do problema desta que é a mais antiga ditadura da América Latina.

Há mais de seis décadas o regime cubano nega à sua população todos os elementos básicos fundamentais para o espírito e o corpo humano. Naturalmente, o embargo imposto pelos Estados Unidos durante quase esse mesmo tempo não ajuda. As restrições do governo sobre o minúsculo setor privado prejudicam ainda mais os cubanos. As empresas, incluindo supermercados e restaurantes, são impedidas de contrair empréstimos em bancos ou realizar negócios com corporações estrangeiras. Produtos alimentares sempre foram racionados e, agora, com a pandemia, as restrições ficaram ainda mais rígidas.

Apesar das queixas já serem antigas, observamos algo novo nas manifestações de domingo: o seu alcance.

Os protestos irromperam em massa, espontaneamente, por todo o país, incluindo as cidades da zona rural.

No passado, os protestos se limitavam a pequenos grupos, especialmente na capital, Havana. Os cubanos comuns, mesmo aqueles encolerizados, sabiam do risco de se chegar muito perto dos manifestantes - física e politicamente. Qualquer expressão de solidariedade para com alguma forma de dissidência é muito perigosa. Perder o emprego é o risco mais comum. Ser preso é corriqueiro.

Mas no domingo o “medo de participar” coletivo desapareceu. A solidariedade venceu a atitude mental do “vire-se por sua conta e risco”.

O governo reagiu do mesmo modo que em protestos anteriores, com um apelo à “luta”. O presidente Miguel Díaz-Canel colocou as  forças de segurança nas ruas para sufocar os protestos. E apelou aos cidadãos comunistas que “defendessem” a revolução.

A manifestação mais próxima dos protestos de domingo em Cuba num passado recente foi o Maleconazo, em 1994, quando centenas de cubanos se reuniram na famosa esplanada à beira-mar em Havana, Malecón, para protestar contra a depressão econômica conhecida como “período especial”.

Os motivos que desencadearam os dois protestos são similares. Hoje, como em 1994, Cuba sofre por causa das turbulências vividas por seu principal suporte financeiro e fornecedor de petróleo: a antiga União Soviética em 1994, e desde 2016 a Venezuela. As falhas do poder são tão comuns hoje quanto foram no início da década de 1990. Hoje, como em 1994, o país passa por uma contração econômica que já dura cinco anos.

Além disso, um ano antes do Maleconazo, o Estado cubano havia anunciado reformas orientadas para o mercado que eram muito limitadas, sem nenhum benefício para muitos cubanos. No início de 2021, o regime cubano introduziu outras mudanças - e, novamente, foram muito tímidas e só beneficiaram os cubanos bem relacionados. Agora os cidadãos sabem que as medidas significam que algumas pessoas privilegiadas irão enriquecer ao passo que o resto da população não vai ganhar nada.

E os protestos de domingo ocorreram numa Cuba amplamente distinta da Cuba dos anos 1990. Os celulares e o Wi-Fi hoje estão disponíveis e os cubanos puderam compartilhar em tempo real as manifestações que irromperam pelo país.

O primeiro protesto ocorreu na cidade de San Antonio de los Baños, perto de Havana. Os manifestantes postaram vídeos no Facebook Live, incluindo clipes de como as forças de segurança estavam tentando reprimir as manifestações. E então, os protestos explodiram em pequenas e grandes cidades por toda a ilha. Os cubanos comuns, que em sua maioria costumam ser apolíticos, aparentemente decidiram aderir.

O governo conseguiu bloquear os vídeos no Facebook Live e impossibilitou o acesso a sites de mídia social. Não obstante, os protestos continuam.

Outra diferença é a pandemia. Em Cuba, ela desmascarou a decadência do sistema público de saúde, com pouquíssimos leitos em hospitais e um número muito grande de médicos fora do país, com frequência contra a sua vontade, trabalhando em missões médicas promovidas pelo Estado. Cerca de 26,4% da população foi vacinada.

Os cubanos também podem estar se sentindo mais corajosos agora que os temidos irmãos Castro desapareceram: Fidel Castro morreu em 2016 e seu irmão Raul se afastou das posições de liderança em abril. Ou talvez os riscos continuem os mesmos, mas eles se sentem hoje mais encorajados.

E talvez estejam se inspirando na América Latina, onde protestos têm irrompido desde 2019. O Movimento San Isidro, um grupo de artistas com forte representação afro, vem protestando desde o final do ano passado contra a repressão das liberdades artísticas pelo Estado.

Esse movimento criou uma música de rap cubana chamada Patria y Vida, ou Pátria e Vida, uma inversão do slogan de Fidel Castro, Pátria ou Morte. Com mais de seis milhões de visualizações no YouTube, a música se tornou um chamado à mobilização, não apenas em Cuba, mas na América Latina, Espanha e Estados Unidos. Independentemente de a inspiração ser local ou internacional, o fato é que uma nova coragem e esperança pairam no ar.

O regime corre perigo? Dificilmente. O governo aperfeiçoou, e na verdade exportou, a arte da repressão comunista com grande efeito. É uma combinação de forças de segurança no estilo soviético, comitês de vigilantes nos bairros e bandidos patrocinados pelo governo disfarçados de civis.

Os protestos do domingo, contudo, podem ser um momento decisivo. No passado, o regime precisou apenas usar a repressão cirurgicamente. O temor era dominante e mantinha todo mundo em casa.

Mas eram muitos cubanos cantando no domingo “Não temos mais medo”.

É muito cedo para dizer o que acontecerá em Cuba. Mais prisões e intimidações ocorrerão nos próximos dias e a energia dos protestos pode dissipar.

Mas os manifestantes se expressaram de forma clara e em alto e bom som. Com mais liberdades eles conseguirão criar uma nação mais forte; com mais comida conseguirão sobreviver e ter uma vida mais saudável. Patria y Vida, é o que eles querem. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É diretor do departamento de ciências políticas no Amherst College e autor do livro Fixing Democracy

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