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O diálogo de Barbados

Chavismo e oposição venezuelana negociam uma saída para a crise

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2019 | 06h30

“Ratificamos a mensagem do Reino da Noruega. Junto à comunidade internacional, e graças à mobilização de todos os venezuelanos, avançamos para buscar o fim ao sofrimento de nosso povo e eleger nosso futuro em liberdade.” Com essa frase vaga e sucinta - como cabe, aliás, a um tuíte -, o chefe da equipe de negociadores da oposição venezuelana na ilha de Barbados, deputado Stalin González, confirmou uma informação da chancelaria norueguesa, também via Twitter: “Informamos que os representantes dos principais atores políticos da Venezuela continuam as negociações iniciadas em Oslo no contexto de uma mesa que trabalha de maneira contínua e ágil”.

Do lado do regime, o ministro das Comunicações, Jorge Rodríguez, também confirmou: “Seguimos nos diálogos e ratificamos o pleno respeito às pautas estabelecidas”. Faz parte do compromisso com os mediadores noruegueses não divulgar detalhes do andamento do diálogo, para evitar abortá-lo. Em entrevista coletiva no dia 8, o presidente Nicolás Maduro declarou que seis pontos estão sobre a mesa. 

O site de notícias Alnavío, especializado em América Latina, e com sede em Madri, afirmou ter obtido de uma fonte com acesso às negociações que cinco dos seis pontos seriam: eleições organizadas por um novo Conselho Nacional Eleitoral (o atual é controlado pelo regime); fechamento da Assembleia Nacional Constituinte, cuja eleição em 2017 foi boicotada pela oposição; reincorporação dos chavistas à Assembleia Nacional, dominada pela oposição; eleições em um ano ou menos, e com ou sem Maduro como candidato. O site especula que o sexto ponto seria a retirada das sanções internacionais contra o regime chavista. Um experiente editor de política em Caracas me disse que faz sentido que os pontos sejam esses. 

De 2014 para cá, houve três tentativas de diálogo, envolvendo um enviado do papa Francisco, o ex-primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero e o próprio governo norueguês. Por que levar esta nova tentativa a sério? A condição ideal para uma resolução de conflito ter êxito é que as duas partes sintam uma ameaça real de serem derrotadas por esse conflito. Essa condição sempre esteve presente do lado da oposição. Mas não do lado do governo, que por isso nunca cedeu.

Isso mudou no início deste ano, quando a oposição acreditou que conseguiria atrair o apoio das Forças Armadas e derrubar o regime, graças à mobilização internacional em torno da proclamação de Juan Guaidó como presidente interino. Essa autoconfiança da oposição refluiu. Apesar do intenso cerco comercial e financeiro montado pelos EUA, a Venezuela tem conseguido vender ouro suficiente das reservas do Banco Central para comprar bens de primeira necessidade que garantem a sobrevida do regime, ainda que de forma cada vez mais precária. 

Segundo a agência Bloomberg, o país vendeu cerca de 24 toneladas desde abril para fundos nos Emirados Árabes e na Turquia. A última venda foi na semana retrasada, de quase uma tonelada, por US$ 40 milhões. Talvez como consequência disso, uma grande empresa venezuelana procurava na semana passada fornecedores brasileiros de frango inteiro, pernil desossado e cestas básicas. Parte da carne era destinada à China, numa aparente triangulação para obter dólares para comprar outros produtos de primeira necessidade, como gasolina.

De sua parte, a oposição está recebendo US$ 42 milhões do governo americano. A verba foi redirecionada do orçamento de ajuda de US$ 370 milhões para El Salvador, Guatemala e Honduras, prevista no ano passado, e suspensa pelo presidente Donald Trump para pressionar esses países a conter a migração para os EUA via México. Como se vê, tanto o governo quanto a oposição estão respirando por aparelhos. “Todos terão de ceder”, disse Maduro. Com 84% de rejeição, é ele quem tem mais a perder. 

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