AFP / JOEL SAGET
AFP / JOEL SAGET

'O Diário de Myriam', a guerra na Síria contada por uma adolescente

Textos da jovem de 13 anos sobre os combates em Alepo viraram livro, publicado na França pela editora Fayard

O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2017 | 05h00

PARIS - A síria Myriam Rawick, de 13 anos, teve de fugir de seu bairro, sofreu bombardeios e se converteu em uma refugiada em sua própria cidade. Um pesadelo de cinco anos que ela conta em seu diário.

"O diário de Myriam" conta a guerra civil na Síria sob a visão de uma menina de família cristã de origem armênia, cuja vida foi alterada por "coisas de gente grande".

Ela escreve tudo o que viu, desde slogans revolucionários pintados nos muros, manifestações contra o governo, o sequestro de seu primo, e os combates.

"Quando a guerra começou, minha mãe sugeiu que eu escreve um diário. Nele, eu contava tudo o que ocorria durante o dia. Eu me dizia que um dia o releria e recordaria tudo o que ocorreu", conta a jovem de cabelo castanho em uma entrevista em Paris à agência France Presse.

Quando em dezembro o jornalista francês Philippe Lobjois escutou falar sobre Myriam e seu diário, um caderno de umas 50 páginas em árabe, pensou que essa era a ocasião de contar a guerra por dentro.

Seu diário, que cobre o período de novembro de 2011 a dezembro de 2016, foi traduzido em francês e acaba de ser publicado pela editora Fayard.

Antes de se converter no principal campo de batalha da guerra na Síria, Alepo, uma das cidades mais antigas do mundo, exibia tesouros declarados Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

"Alepo era um paraíso, era nosso paraíso", conta, vestida com uma calça jeans e uma camiseta rosa na qual está escrito "love". Mas logo esse paraíso se transformou em um inferno.

Ela afirma que jamais poderá esquecer os sinistros dias de março de 2013, quando "homens vestidos de negro", rebeldes islâmicos, obrigaram a ela e a sua família a abandonar sua casa.

"Acordei pela manhã e escutei o ruído de objetos que estavam sendo jogados e gente que gritava 'Allah Akbar' (Dios é o maior, em árabe). Senti muito medo, tinha vontade de vomitar. Abracei minha boneca muito forte e lhe dizia que não tivesse medo, que eu estava com ela", lembra.

"Apressei-me para guardar os livros em minha mochila. Adoro livros e não podia abandoná-los. Vesti dois casacos, um em cima do outro, para proteger-me das balas perdidas. Na rua vi um homem barbado, vestido de negro, com uma arma na mão. Eu tinha muito medo. Caminhamos muito até chegar em um bairro mais seguro", disse, referindo-se a oeste de Alepo, a parte da cidade sob o controle do governo, que frequentemente é alvo de bombardeios.

"O que eu mais temia eram o mísseis.  Uma noite, antes de ir dormir, o céu ficou vermelho e houve um ruido ensurdecedor. Um míssil tinha caído na rua perto da nossa casa. Para nos acalmar nos davam açúcar, nos diziam que ajudava a passar o medo. Mas eu não sentia nenhuma diferença", disse Myriam.

"Nos refugiamos em uma vizinha e me instalaram em uma colchão em frente da janela. Eu tinha muito medo, tinha medo da janela, dos fragmentos de vidro. Não queria ficar desfigurada."

O recuo dos últimos rebeldes em dezembro fez com que retornasse uma certa normalidade a Alepo, apesar de os serviços de água e eletricidade não terem sido restaurados.

"Já não tenho medo das bombas. Voltei à minha infância, voltei a brincar com as crianças da vizinhança", conta sorridente.

Desde que os combates terminaram só voltou uma vez ao seu antigo bairro. "Foi como se meu coração voltasse a bater. Relembrava todos os momentos que vivi ali. Havia como um perfume de felicidade antiga. Mas eu não voltaria a viver ali."

A adolescente, que sonha ser astrônoma, "porque ama as estrelas", continua escrevendo seu diário. "Não quero esquecer o que estou vivendo agora", explica. / AFP

 

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