O difícil caminho para que a China vire superpotência

Uma das condições que faltam ao país é ter indústria sofisticada e inovadora

William Pfaff, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2002 | 00h00

Washington e as capitais européias estão preocupadas com o crescimento econômico e a expansão das atividades e da influência internacionais da China, tomando como evidente que num futuro não muito distante o país asiático se tornará uma ''''superpotência''''.Os americanos pensam na China se transformando numa superpotência não só econômica, mas também militar. Os europeus pensam em comércio e competição econômica. Ambos subestimam o que é preciso para tornar-se uma superpotência industrial moderna. Isso requer um nível muito elevado de capacidade tecnológica autônoma, para começar, além de uma indústria sofisticada e inovadora para usá-la, condições que hoje faltam à China.O país está educando com urgência a geração de cientistas e técnicos, fundamental para seu desenvolvimento futuro, mas eles voltam de estudos no exterior para uma base industrial limitada demais para usá-los de maneira adequada. A China é uma fabricante de bens não sofisticados projetados no exterior. Sua tecnologia é derivada. Isso continuará assim? Possivelmente.TAXA DE CRESCIMENTOLester Thurow, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), publicou recentemente uma análise das pretensões oficiais chinesas a taxas de crescimento industrial anual de 10% ou mais, considerando-as incompatíveis com evidências objetivas, como índices de consumo de eletricidade, e dados históricos de desenvolvimento em outros países. O professor do MIT estima que a taxa de crescimento real do país esteja entre 4,5% e 6%, e afirma que nenhuma delas dará à China uma economia de superpotência no presente século.E isso sem levar em conta a devastação ecológica produzida no país por uma industrialização e um crescimento descontrolados e corruptos. A corrupção tende a ser o motor do desenvolvimento da China, e fundamental para ele.Essas projeções de crescimento também tendem a ignorar a imensa, atrasada, empobrecida e politicamente inquieta população agrária chinesa - e, possivelmente, uma crise política revolucionária na China no futuro previsível. Essa crise decorreria das inadequações, corrupção e ilegitimidade política de uma classe dirigente que perpetua a si própria, cujo único direito à autoridade é sua descendência burocrática do catastrófico regime comunista de Mao Tsé-tung.INFLUENTE E DEPENDENTEPor outro lado, o governo chinês está buscando influência econômica em todo lugar onde possa encontrá-la, seja com investimentos estrangeiros em países avançados, financiados com os recursos fornecidos à China pelo endividamento comercial dos Estados Unidos, seja com volumosas compras de matérias-primas em países ricos em recursos naturais, de preferência países subdesenvolvidos e geralmente pouco regulamentados.Isso cria influência, mas também dependência e ressentimento, e uma eventual retração - como já é visível em alguns países africanos, explorados e depois abandonados pelos chineses, onde a indústria local também tem sido destruída pelas importações chinesas baratas que fazem parte do abraço econômico e do programa de exploração de recursos naturais chineses.O que essa globalização revela sobre a China? Uma notável série de artigos de um correspondente do jornal Le Figaro em Pequim, François Hauter, tenta responder a essa pergunta (entre outras). Ele escreve sobre duas Chinas que coexistem - a China moderna exibida a estrangeiros e a China desconhecida do mundo, ''''onde nada mudou em um quarto de século''''. Isso vale para viagens aéreas (''''eles mudaram os aviões, mas não o serviço''''), trens, bancos domésticos, e os hotéis pertencentes aos próprios chineses, ''''de atendimento indiferente, lençóis cinzentos, comida infecta''''.Ninguém é responsável por nada, escreve Hauter. ''''Onde não tem parceiros estrangeiros, a China parece fossilizada. Continua sendo a China de Mao.'''' Ele argumenta que essa ''''passividade agressiva'''' é um mau presságio. ''''Onde está a China que deu à humanidade o papel, a bússola, a pólvora?'''', pergunta.Como a China pode sonhar em rivalizar com o Ocidente sem a sua criatividade? ''''O gênio da China estará agora preso em seu papel atual de copiador do Ocidente? Ou será esse o papel que nós lhe impingimos? Essa é, claramente, a questão importante sobre o seu futuro''''.

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