Ivor Prickett/NYT
Ivor Prickett/NYT

O difícil resgate dos filhos europeus do Estado Islâmico 

Europeus que aderiram ao jihadismo, vistos como ameaça, tentam repatriação com os filhos

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2019 | 05h00

BRUXELAS - Anos depois de seus pais deixarem a Bélgica e a França para se juntarem ao Estado Islâmico, 18 crianças foram retiradas de precários campos de refugiados na Síria e levadas recentemente para novas vidas na Bélgica e na França, chamando atenção generalizada nesses países como exemplos da aceitação relutante da Europa aos filhos de seus jihadistas.

Mas eram exceções, não a regra. As estimativas variam, mas 1,3 mil ou mais filhos de combatentes europeus e seguidores do autoproclamado califado continuam retidos na Síria e no Iraque. Enquanto alguns governos europeus suavizaram ligeiramente suas posições sobre a repatriação, ainda não está claro quando – ou até mesmo se – as crianças poderão sair.

Nas retiradas por avião em junho, a França e a Bélgica receberam apenas crianças cujos pais extremistas estavam mortos. A maioria é órfã, e alguns foram levados para as terras do Estado Islâmico por seus pais, que foram mortos lá, enquanto suas mães permaneceram na Europa.

Dias antes, uma equipe belga montou uma clínica improvisada no superlotado campo de al-Hol, no nordeste da Síria, que abriga milhares de membros atuais e ex-membros do Estado Islâmico e seus parentes, oferecendo assistência médica e avaliações psiquiátricas para os filhos de cidadãos belgas. “Eles queriam ir para a Bélgica”, disse Heidi De Pauw, membro da equipe. “Eles ficavam nos dizendo: ‘Queremos voltar para casa’”.

Com poucas exceções, os países europeus se recusaram a aceitar os adultos. A questão tem uma carga politicamente pesada em toda a Europa. Os sobreviventes do Estado Islâmico, até mesmo crianças, são encarados como ameaça, não importa quão mudados pareçam estar. 

Quando o Estado Islâmico controlava partes do Iraque e da Síria, estima-se que 41 mil pessoas de outras partes do mundo deixaram suas casas para aderir ao grupo – cerca de um terço delas da Europa, incluindo o Cáucaso. Alguns levaram crianças com eles e outros tiveram filhos lá. 

Mas como o Estado Islâmico perdeu seu último território no início deste ano, dezenas de milhares de sobreviventes lotaram campos de refugiados. 

Cerca de três mil mulheres e sete mil crianças de outros países, além do Iraque e da Síria, são mantidas em Al-Hol, segundo os curdos e o grupo Human Rights Watch. Muitos deles querem regressar para seus países de origem. Acredita-se que os maiores contingentes sejam russos e franceses, além de Alemanha, Holanda e Bélgica.

Autoridades belgas prometeram repatriar todas as crianças com menos de 10 anos de idade, e aquelas com mais de 10 anos, em uma base caso a caso. Oficialmente, a política sobre crianças é uma das mais acolhedoras do continente. Na realidade, tem sido lenta.

Retorno

A Bélgica permitiu que cerca de 25 crianças retornassem da Síria desde 2012, mas 162 crianças belgas ainda estão em terras do antigo Estado Islâmico, de acordo com Thomas Renard, um pesquisador sênior do Instituto Egmont, com sede em Bruxelas.

Bernard De Vos, um representante do governo para os direitos das crianças, disse que a Bélgica deve recuperar seus cidadãos. As mães que cometeram crimes devem retornar e enfrentar julgamento nos tribunais belgas. “Essa é a única coisa a fazer, repatriar todas as crianças e todas as mães. Não há tempo para esperar. Eles estão realmente em perigo”. / NYT

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.