O dilema das armas nos EUA

Esta semana, em Washington, o senador Frank Lautenberg de New Jersey apresentou três projetos de lei muito modestos sobre a regulamentação de armas; um deles prevê que se dificulte a venda de armas a pessoas que estão na lista de suspeitos de envolvimento com terroristas.

Gail Collins, The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2011 | 00h00

Ao mesmo tempo, em Salt Lake City, a Assembleia estadual estuda um projeto para homenagear a pistola Browning M911, elegendo-a a arma de fogo oficial do Estado. Qual será a ideia com maior chance de ser aprovada? Um comitê da Câmara de Deputados de Utah aprovou por 20 votos a 9 tal projeto que inclui a pistola Browning ao panteão dos símbolos oficiais do Estado. "Esta arma de fogo é o próprio Estado de Utah", disse o deputado Carl Wimmer, que apresentou o projeto de lei sobre a Browning.

Segundo observadores, o projeto de lei de Wimmer tem uma grande possibilidade de se transformar em lei. Mas Lautenberg terá muita sorte se conseguir uma audiência pública. O terror da Associação Nacional do Rifle (NRA na sigla em inglês) se espalhou a tal ponto que o presidente Barack Obama não quis comprometer o clima em seu Discurso sobre o Estado da União sugerindo que, quando alguém que se encontra na lista dos suspeitos de envolvimento com terroristas tenta comprar uma arma, talvez fosse preciso fazer um controle mais apurado.

Os projetos de Lautenberg são extremamente moderados, e ninguém parece ansioso por debater publicamente contra o que acabaria com a facilidade com que um indivíduo pode comprar carregadores de 30 balas que permitem a qualquer um com uma pistola semiautomática entrar num estacionamento lotado de pessoas e acabar com a vida delas em segundos. Em vez disso, os responsáveis se recusam a atender ao telefone ou soltam um monte de banalidades.

"Em primeiro lugar, as pessoas que pretendem cometer um crime ou fazer alguma loucura não ligam para a lei. É preciso tratar do problema real. Temos uma pessoa mentalmente doente que teve acesso a uma arma quando não poderia fazer isso", disse o senador Tom Coburn em uma entrevista na TV.

Outro projeto de Lautenberg restringiria uma brecha da legislação atual de modo que uma pessoa mentalmente perturbada, que não deveria ter acesso a uma arma, não possa ir a uma feira de armas e comprar uma delas sem o costumeiro controle de segurança.

Na segunda-feira, a Assembleia de Utah comemorou o Dia de Browning, homenageando John Moses Browning, originário desse Estado, fabricante da arma de fogo oficial do Estado. Houve discursos e, evidentemente, uma feira de armas de fogo. Em geral não é considerada uma boa política comentar o estranho comportamento dos legisladores estaduais. Se eu quisesse fazer isto, mencionaria Mark Madsen, senador de Utah, que quis abrilhantar as comemorações do Dia de Browning sugerindo que fossem marcadas para coincidir com o Dia de Martin Luther King, porque "ambos prestaram enormes contribuições à liberdade individual e à autonomia individual".

Mas um sintoma de um novo tipo de loucura no país é quando os políticos se preocupam em provar não só que eles são contrários à regulamentação do uso de armas, como também trabalham ativamente pela introdução de armas em todos os possíveis recantos dos EUA, parques nacionais, escolas, bares, aeroportos.

"Existem abundantes pesquisas que sugerem que nas cidades em que existe um número maior de pessoas que têm armas, a taxa de criminalidade, principalmente de assassinatos, cai", afirmou à CNN o novo senador Mike Lee, de Utah. Na realidade, o debate em torno do tema não acaba mais, e dificilmente chegará a uma conclusão porque, como Michael Luo noticiou no The Times, o lobby da NRA conseguiu acabar com quase todas as verbas federais destinadas à pesquisa científica sobre questões relacionadas a armas de fogo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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