O dilema do fugitivo

Venezuelanos defendem que Washington não conceda asilo a promotor

Franco Ordoñez, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2015 | 06h54

O pedido de asilo feito aos EUA por um promotor venezuelano após confessar que mandou para a cadeia um dos líderes da oposição do país, Leopoldo López, com acusações falsas, desencadeou um dilema político e moral de Miami a Washington.

Muitos venezuelano-americanos opõem-se a que se conceda proteção ao ex-funcionário, Franklin Nieves, considerado um agente da lei autor de vários abusos de poder do regime de Caracas.

Mas os líderes do sul da Flórida em Washington e o governo de Barack Obama também deverão pesar se vale a pena colaborar com personagens do governo como Nieves se isso significar maior pressão contra o presidente Nicolás Maduro – principalmente, dada a proximidade das cruciais eleições parlamentares, no próximo mês.

Reações. Numa entrevista no gabinete do presidente do Capitólio, o deputado Diaz-Baltazar, republicano eleito por Miami, disse que vê com ceticismo o pedido de asilo de Nieves, considerando que seu papel “na máquina da repressão na perseguição dos adversários políticos” é muito recente. Ele observou que López foi condenado a quase 14 anos de prisão há apenas dois meses.

O senador Marco Rubio, o candidato presidencial republicano que cresceu na região de Miami, também mostrou-se cético com a solicitação de asilo. Segundo ele, Nieves “apenas confirmou” o que o governo americano já sabia: “que a Venezuela está sendo arruinada por bandidos inconsequentes no total desrespeito da lei”.

Os EUA historicamente têm protegido pessoas com passados questionáveis. O ex-ministro do Interior da Bolívia, Carlos Sánchez Berzaín, recebeu asilo, embora fosse acusado de liderar a repressão militar contra manifestantes em outubro de 2003, provocando a morte de 56 pessoas.

Jaime García Covarrubias, membro da polícia secreta do chileno Augusto Pinochet, obteve a permissão de lecionar por mais de dez anos na Universidade de Defesa Nacional, o mais importante centro de ensino do Pentágono.

Quando o FBI acabou com a máfia de Nova York, nos anos 60, ele o fez com a ajuda de informantes que se revoltaram contra seus chefões em troca de ser beneficiados pelo programa de proteção de testemunhas.

Eric Farnsworth, vice-presidente do Conselho das Américas com sede em Washington, fez a comparação com o crime organizado para enfatizar que, às vezes, os governos precisam trabalhar com personagens questionáveis quando lutam por um objetivo maior.

O asilo pode ser concedido a pessoas que não têm condições de regressar a seus países porque as acusações contra eles se baseiam em posição política, raça, religião, nacionalidade ou grupo social. Os que o recebem, podem morar e trabalhar legalmente nos EUA. Posteriormente, eles têm a possibilidade de solicitar a residência permanente e, então, a cidadania.

Fuga. Nieves fugiu para Miami com a família no final do mês passado. Então, ele divulgou um vídeo em que explicou que o processo de López foi uma fraude, afirmando que foi pressionado pelos superiores a incluir provas falsas nos autos.

O governo venezuelano negou as acusações. O embaixador designado da Venezuela nos EUA, Maximilien Arvelaiz, acusou Nieves de estar envolvido numa campanha estratégica de relações públicas com o objetivo de comprometer o governo antes das eleições parlamentares do dia 6 de dezembro.

A confissão dramática de Nieves deverá provocar ainda mais incertezas a respeito do governo de Maduro, que foi prejudicado do ponto de vista político pela escassez de alimentos, pela inflação acelerada e pelo aumento da violência. Os confusos resultados de pesquisas indicam que o Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV) de Maduro poderá perder o controle do Parlamento.

Nieves disse que está disposto a fornecer mais informações, mas não está claro se chegou com uma mala cheia de documentos ou se as provas estão fundamentalmente na sua cabeça. Ele não entrou em detalhes.

Autoridades federais dos Serviços de Cidadania e Imigração dos EUA, que supervisiona a imigração legal, disseram que não estão autorizadas a comentar casos específicos. Mas um grupo de exilados com base em Miami, os Venezuelanos Politicamente Perseguidos no Exílio (Voppex), pediu às autoridades americanas que não dessem nenhuma proteção a Nieves, alegando que o asilo se destina a ajudar os que são perseguidos – não os perseguidores.

Efeito colateral. Os EUA também precisam ser cautelosos para não inflamar determinados assuntos agindo de maneira demasiado agressiva, disse Farnsworth. O governo venezuelano já afirmou que Nieves recebeu ajuda de os grupos da oposição nos EUA.

Maduro, assim como seu antecessor, Hugo Chávez, frequentemente demonizou os EUA para conseguir apoio do eleitorado. Na televisão venezuelana, Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional, disse que foi muito conveniente que Nieves já estivesse nos EUA quando divulgou o vídeo e o acusou de aceitar suborno para fazer as acusações.

Segundo Díaz-Baltazar, são necessárias mais informações sobre o papel de Nieves no governo de Maduro. Ficou estabelecido, prosseguiu, que os que “têm sangue em suas mãos devam sofrer as consequências”.

Este ano, o general salvadorenho da reserva Carlos Eugenio Vides Casanova, que antes era visto por Washington como um estreito aliado durante a guerra civil salvadorenha, nos anos 80, foi deportado pelos EUA depois que tribunais da imigração o vincularam a abusos dos direitos humanos.

Na opinião de Greg Weeks, editor da revista acadêmica The Latin Americanist, Nieves poderá apresentar uma visão em primeira mão dos crimes do governo de Maduro.

Embora seja compreensível que os venezuelanos da Florida e de todo o país não possam aceitar Nieves, às vezes é possível compreender certos colegas. Weeks, que é também do presidente do Departamento de Ciências Políticas e Administração Pública da Universidade da Carolina do Norte, observou que o governo americano trabalha com indivíduos que têm passados muito mais brutais do que o promotor.

“De um ponto de vista estratégico, acho que eles querem extrair toda a sujeira que conseguirem dessas pessoas”, disse Weeks. “É um preço bastante pequeno a pagar para conseguir uma sujeira que valha a pena”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

FRANCO ORDOÑEZ É JORNALISTA DO MCT

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