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O dinheiro da Jihad

O Estado Islâmico vem sendo golpeado desde que a Rússia decidiu intervir e a França passou a, bruscamente, amar Putin. A expansão territorial do grupo reduz o passo ou até mesmo recua.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S. Paulo

21 de novembro de 2015 | 05h00

No entanto, mesmo se as províncias controladas pelo Estado Islâmico (entre Síria, Iraque e metástases na Líbia) necessitarem reduzir seus custos e efetivos, o veneno do EI continuará a correr nas veias do mundo. A organização pode se tornar uma espécie de quartel-general do terrorismo planetário, como era a Al-Qaeda à época dos atentados de 11 de setembro de 2001.

Mas há uma condição: que o tesouro de guerra do EI permaneça e continue a aumentar. Jamais uma organização terrorista acumulou tanta riqueza quanto o Estado Islâmico. O grupo recruta grande número de assassinos. Mas também traders, banqueiros, advogados, contadores etc.

Fontes. Quais são as receitas do EI? Primeiramente, são as taxas e impostos cobrados das populações enclausuradas nas áreas que ele controla: 280 milhões. Depois, há o trigo cultivado no Iraque e vendido como contrabando: € 280 milhões. A venda de tesouros da antiguidade: € 80 milhões. E os sequestros, que rendem €¤ 30 milhões a 40 milhões.

E quanto ao petróleo? Nesse caso, os dados são espantosos. O subsolo do Estado Islâmico contém, segundo especialistas, dois trilhões de barris de reservas do bruto. Uma parte é direcionada para o Curdistão iraquiano. Dali, ele vai para a Turquia onde é revendido a preço rebaixado: 20% abaixo do preço de mercado. Uma parte do petróleo é refinada e em seguida retorna para as zonas controladas pelo EI.

O orçamento da organização também é enorme por causa dos donativos que recebe por meio de ONGs islamistas. Os principais doadores estão na Turquia e, evidentemente, na Arábia Saudita e no Qatar.

E qual o montante das despesas? Os institutos de pesquisa divergem. Para alguns chega a US$ 1,2 bilhão por ano. Para outros US$ 3 bilhões.

Mas o enorme “tesouro” não fica inativo. Os excedentes orçamentários são enviados para longe da Síria e do Iraque – ameaçados que estão pela ofensiva conjunta de Putin, Hollande e Obama. Uma proeza técnico-bancária: transferir somas gigantescas para países respeitáveis, longe do fogo.

Os “negociantes da morte” se beneficiam de conselhos “post mortem” do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein, enforcado lamentavelmente em 2006 em Bagdá.

Depois de iniciada com sucesso a contraofensiva dos países livres, o EI procurou dar mais atenção a essas transferências, para proteger seu dinheiro, a fim de usá-lo, quando chegar o momento, para a sobrevivência dos dirigentes, suas famílias, reservando uma parte para montar novas ações.

O Estado Islâmico procurou países onde os bancos sofrem, como se afirma elegantemente, de uma “porosidade”: Chipre, Malásia, Indonésia, Turquia e, especialmente, o Líbano. E aí começa a lavagem de dinheiro. Em primeiro lugar, é criada uma sociedade na Síria, que é financiada tanto nas zonas controladas pelo grupo como nas zonas governamentais ou mesmo curdas. É o EI que financia essa sociedade.

Em seguida, por meio dela, o dinheiro sai e é depositado em um banco estrangeiro. O Líbano é um exemplo perfeito. Antiga grande praça financeira, possuindo financistas conhecidos pelas suas habilidades, com frequência é para esse país que os fundos são transferidos. Com a ajuda de advogados “tolerantes”, opera-se uma sociedade em um outro país mais permissivo, como Chipre ou Malásia, cujo capital é mantido pela primeira sociedade na Síria.

Ali, a sociedade cipriota emite faturas com valores enormes em nome da empresa síria, relacionadas a serviços ou estudos “imaginários” para o dinheiro circular rapidamente entre as duas empresas.

Nesse momento, uma terceira sociedade de importação e exportação é formada, de preferência na Europa, que revenderá os produtos da outra a preços muito superiores aos de mercado. Cada superfaturamento libera o dinheiro transferido para economias normais.

Por força dessa circulação, as somas de dinheiro perdem os traços da sua origem e, no final, turistas instalados em uma grande cidade europeia usam cartões de crédito aceitos plenamente por essas sociedades.

Simplificamos a fantástica teia de aranha ao longo da qual os fundos perambulam, isso significa que os banqueiros do Estado Islâmico são especialistas. E também que o último encontro do G-20 na Turquia foi muito inspirado ao reclamar uma ação planetária para eliminar os circuitos por onde transita esse dinheiro mais do que sujo, um dinheiro repugnante. Sim, o G-20 foi muito inspirado sabendo, porém, que a iniciativa está condenada por antecipação. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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