O dinheiro que compra amor e acoberta preconceito

Dono de time de basquete que fez comentário racista ganharia prêmio de ONG antirracismo

Frank Bruni*, The New York Times/O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2014 | 02h04

Há exatamente 50 anos, os Beatles afirmaram numa canção que dinheiro não pode comprar o amor. Donald Sterling, dono da equipe de basquete Los Angeles Clippers, conseguiu o impossível. Conseguiu tirar o título de racista do momento de Cliven Bundy (banido ontem da federação de basquete americano, a NBA), graças a uma gravação de áudio com observações sobre relacionamentos públicos com pessoas negras.

Uma atitude de cair o queixo, acompanhada deste fato incrível: a seção de Los Angeles da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas Negras (NAACP na sigla em inglês) estava prestes a conferir a Sterling um prêmio em tributo à sua carreira - o terceiro prêmio oferecido a ele pela NAACP nos últimos anos.

Se você crê que esta nova celebração se explica por uma história imaculada até a divulgação do áudio, você é tão ingênuo quanto aqueles adoráveis garotos de Liverpool. Sterling foi processado diversas vezes por discriminação racial e encerrou uma ação, em que era acusado de expulsar inquilinos de apartamentos de sua propriedade, com um acordo multimilionário considerado uma das maiores indenizações pagas em casos desse tipo. Um ex-supervisor das suas propriedades, ao prestar testemunho, disse que ele chegou a afirmar enfurecido que os inquilinos negros cheiravam mal e eram sujos e os mexicanos eram preguiçosos e alcoólatras.

Ele negou tais alegações, mas também, perversamente, fez piada sobre o fato de se livrar da acusação. Num perfil de Sterling publicado na revista da ESPN em 2009, o escritor Peter Keating descreveu a chegada dele a um evento da NAACP naquele ano. Referindo-se ao interesse dos jornalistas, ele teria dito que "eles querem saber por que a NAACP daria um prêmio a uma pessoa com meus antecedentes".

Não existe nenhum mistério na resposta: dinheiro, com o qual muita gente compra o seu amor, na forma de elogios, endossos, aclamações. Da mesma maneira que você pode adquirir um posto de embaixador, também pode comprar uma imagem de altruísmo e, se quer ser perdoado por algum mal que praticou ou pode ainda cometer, há poucas estratégias mais eficazes do que tirar do bolso seu talão de cheque.

Amor proporcional. De acordo com os zeros e pontos necessários no valor que escrever no cheque o amor obtido será maior. Você será encharcado de amor. Ele vai limpá-lo.

David Sterling com certeza considerou isso. Colocou anúncios nos jornais comemorando o Mês da História Negra. Deu a crianças pertencentes a grupos minoritários bilhetes para jogos do Clippers.

"Ele também contribui, há anos, para instituições de assistência a minorias, incluindo a NAACP", afirmou Leon Jenkins, presidente da sucursal da organização em Los Angeles, numa entrevista coletiva mais do que desastrada na segunda-feira. Jenkins tentou justificar o prêmio concedido a Sterling - que a organização agora retirou - e os agrados a ele todo este tempo.

Jenkins rejeitou as maldades atribuídas a Sterling mesmo antes da gravação ser divulgada como "meros rumores sobre o caráter de uma pessoa" que deviam ser no melhor dos casos ignorados.

Não é minha intenção acusar a NAACP; Entre muitos grupos de defesa, existe uma ética cinicamente ligada a negócio: dinheiro em troca de uma aura. Você me financia e eu serei seu amigo. Promova minha causa e eu o absolverei de todos os pecados.

Em março de 2013, o grupo de defesa dos direitos dos gays, GLAAD, inventou um novo prêmio - o Ally Award - para o cineasta Brett Ratner. Pouco mais de um ano depois, Ratner usou publicamente termos homofóbicos e foi obrigado a desistir da produção do programa de TV transmitindo o Oscar de 2012.

O que o reabilitou? Bem, ele consagrou seu tempo - e dinheiro - a anúncios de serviços públicos para o GLAAD. Arrecadou fundos para Christine Quinn, candidata lésbica à prefeitura de Nova York.

Numa reportagem publicada na The New Yorker, em 2010, Jane Mayer observou que David Koch havia doado dezenas de milhões de dólares à pesquisa de câncer e também, o que não foi surpresa, recebido um assento no National Cancer Advisory Board e o prêmio de Excelence in Corporate Leadership Award do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center.

Por outro lado a Koch Industries estava envolvida num agressivo lobby para impedir a Agência de Proteção Ambiental de classificar o formaldeído, produzido pela companhia como substância cancerígena.

Existe a filantropia autenticamente generosa. Outras são profiláticas ou implicam uma penitência: o poluidor apoia os ambientalistas, enquanto o vendedor de refrigerantes com açúcar contribui para campanhas contra a obesidade.

Há ações filantrópicas que derivam da simples vaidade, da busca pela glória. As instituições de caridade aceitam o jogo, basicamente vendendo assentos nas suas diretorias e realizando jantares divulgados na mídia com prêmios outorgados a mandachuvas que dificilmente são o principal suporte da causa.

Não, esses premiados abrem caminho para redes inteiras de doadores potenciais. Assim eles recebem um selo de aprovação. Aplausos entusiásticos. É um tipo estranho de amor. E está seguramente à venda.

*Frank Bruni é colunista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.