REUTERS/Marco Bello
REUTERS/Marco Bello

O dinheiro venezuelano perdeu o sentido

O valor do bolívar caiu tanto que saqueadores nem se importam em levá-lo

Francisco Toro / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2018 | 05h00

Um amigo me enviou recentemente uma fotografia que conta uma poderosa história sobre a situação na qual os venezuelanos se encontram agora. Na verdade, não é uma imagem muito boa, apenas uma foto borrada de lixo: algum material de embrulho, um CD antigo - detritos deixados para trás depois que uma loja foi saqueada na semana passada em San Felix, uma cidade no sudeste do país.

E, no entanto, não consigo parar de pensar nisso, porque, no meio do lixo, havia pelo menos uma dúzia de notas de 20 bolívares, moeda de denominação tão pequena agora, tão inútil, que nem mesmo os saqueadores acharam que valia a pena parar e recolhe-las.

A foto deixou-me subitamente sem ação. Em teoria, de acordo com a taxa “oficial” de câmbio, que há muito tempo perdeu o menor toque de conexão com a realidade, cada uma dessas notas vale US$ 2. Na verdade, à medida que a Venezuela afunda cada vez mais profundamente na hiperinflação, a primeira que o Hemisfério Ocidental vê em uma geração, as notas de bolívares passaram a valer basicamente nada: cada uma vale cerca de US$ 0,0001 à taxa de câmbio atual, o que significa que é preciso ter 100 delas para igualar um centavo.

É fácil ver porque os ladrões os deixaram para trás.

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A hiperinflação desorienta. Cinco ou seis anos atrás, os 500 bolívares no chão teriam comprado uma refeição para dois com vinho no melhor restaurante de Caracas. No final do ano passado, eles teriam comprado pelo menos uma xícara de café. No final de 2016, eles ainda comprariam pelo menos uma xícara de café com leite. Hoje, eles compram basicamente nada. . . bem, com exceção de 132 galões da gasolina mais extravagantemente subsidiada do mundo.

Os preços agora crescem mais de 80% por mês, de acordo com o Comitê de Finanças da Assembleia Nacional, liderada pela oposição. (O próprio governo deixou de publicar os dados oficiais de inflação há muito tempo.) A essa taxa, os preços duram 34 dias se tanto. Os salários ficam muito atrasados, deixando o país a enfrentar a fome cada dia mais devastadora. O que provoca os saques.

A Regra número 1 para sobreviver à hiperinflação é simples: livrar-se do seu dinheiro. Dada a velocidade com que o dinheiro perde seu valor, mantê-lo significa que você está perdendo. O segundo: você é pago, você corre o mais rápido que pode para comprar algo - qualquer coisa - enquanto você ainda pode pagar. É melhor manter qualquer outro ativo que não seja dinheiro, porque os ativos possuem seu valor e o dinheiro não.

Encontrou uma lata de atum? Compre. Mesmo que você deteste atum. Mesmo que você não tenha intenção de comer atum. Você sempre poderá trocá-lo por algo mais tarde. O atum mantém seu valor. O dinheiro não.

Acredito que é por isso que é tão difícil fazê-lo compreender, se você nunca passou por uma hiperinflação. Parece que os preços estão aumentando rapidamente, mas na verdade não estão. Na verdade, o dinheiro está desmoronando. Sob a hiperinflação, o dinheiro não funciona mais. Não armazena valor. Apenas deixa de fazer as coisas básicas que as pessoas esperam que o dinheiro faça. Ele deixa de ser algo que você deseja e se transforma em algo que você fará qualquer coisa possível para evitar ter em mãos: algo tão sem valor que você nem se inclina e pega do chão ao participar de um saque.

E isso é o que aconteceu, saques disseminados e pilhagem com ajuda estatal. A fronteira final no colapso da economia venezuelana e da cultura cívica. Como chegamos até aqui?

Não faz muito tempo, em 2015 e 2016, você provavelmente se lembra de ter lido sobre as longas filas em praticamente todos os supermercados em busca de bens básicos. As filas foram formadas porque o governo colocou limites de preços em todos os bens básicos e, como você aprende na primeira semana de qualquer curso introdutório de economia, o controle de preços gera escassez.

Mas, paradoxalmente, o fato de essas filas se formarem pelo menos era um sinal de que as pessoas esperavam que encontrariam bens controlados pelo preço dentro, se tivessem paciência para enfrentar a espera. Então, quando as filas começaram a desaparecer no final do ano passado, não foi sinal de melhoria - a escassez cresceu a tal ponto que as pessoas desistiram. Produtos acessíveis de primeira necessidade simplesmente desapareceram das prateleiras para sempre, restando só produtos de luxo a preços internacionais que apenas uma minúscula elite poderia pagar.

Em vez disso, o governo improvisou um novo e desajeitado sistema de entrega de um pacote de produtos básicos nas casas das pessoas a cada mês. Sem surpresa, dado o lamentável estado das finanças públicas, esse sistema logo deixou de funcionar. Eram muito poucos os pacotes que chegavam a algumas casas, deixando uma lacuna que poderia ser preenchida apenas pelo saque a lojas, que ainda vendiam produtos caros a preços internacionais.

Claro, poucas lojas vão pensar em repor estoques depois de terem sido saqueadas, e praticamente nenhuma delas poderia obter o capital para fazê-lo. Portanto, parece que estamos chegando ao fim da linha: cada uma das últimas possibilidades para que as pessoas conseguissem colocar uma refeição na mesa se esgotaram. Um vídeo que foi viral recentemente mostrou venezuelanos literalmente correndo em uma pastagem de vacas para caçar um bezerro até a morte e tentar obter uma refeição.

Como os venezuelanos podem continuar? Uma coisa é clara: ninguém no poder está muito preocupado. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

É JORNALISTA

 

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