O ditador Saddam Hussein: um perfil

Estamos em 1982, em plena guerra contra o Irã. Saddam Hussein exerce o poder absoluto desde 1979. Ele exige que seus ministros lhe manifestem, com toda a franqueza, sua opinião a respeito de uma eventual demissão do presidente, que pudesse contribuir para pôr um fim a esse sangrento conflito.Apenas um ministro tem a coragem de falar francamente: o ministro da Saúde, que aconselha Saddam a apresentar "uma renúncia temporária, até que a paz com o Irã seja assinada"Saddam agradece o ministro por sua franqueza. E o convida a acompanhá-lo até seu escritório, onde o fulmina com uma bala na nuca. O corpo do ministro é enviado de volta à sua mulher.Como a vida de muitos tiranos, a de Saddam é feita de chacinas, de mortes, de assassinatos e tentativas de genocídios. Nascido em 1937 em Takriti, ao norte de Bagdá, Saddam, com apenas 19 anos, participa de um golpe de Estado fracassado.Em 1959, com 22 anos, o Partido Baath descobre este estudante superdotado em crimes, e o encarrega, juntamente com outros nove camaradas, de assassinar o general Kassem. Novo fracasso. Condenado à morte à revelia, ele foge para Damasco, na Síria, onde completa sua educação política. Em 1963, a calma parece estar restabelecida em Bagdá. Hussein volta, mas é obrigado a mergulhar na clandestinidade. É preso.Libertado mais tarde, ele prepara um novo golpe de Estado, que então tem sucesso. Em 1968, o general Hassam el Bakr, primo de Hussein, torna-se o líder. Mas Hussein é o "número 2" e o verdadeiro "homem forte" do país. No dia 16 de julho, seu primo Hassan el Bakr pede demissão "por motivo de saúde". Hussein torna-se o chefe supremo.E qual é sua primeira preocupação? Descobre imediatamente um "bando de traidores" e manda executar 21 deles. A Síria rompe as relações. Mas, acima de tudo, torna-se iminente uma guerra do Iraque contra o Irã "islâmico" de Khomeini.Hussein, depois de ter cortado muitas cabeças, sente-se seguro. E apresenta-se como "democrata". Cria Assembléias Legislativas (uma para o Estado e outra para a região autônoma do Curdistão). Mas a guerra se aproxima.O governo islâmico de Teerã apoia os partidos xiitas em Bagdá. Hussein recorre ao seu "velho e bom" costume: manda decapitar o líder dos xiitas iraquianos, o aiatolá Mohammed Bagher Sadr. Em 1980, o Irã expulsa vinte mil iraquianos. O Exército iraquiano invade o território do Irã.Esta guerra será longa e terrivelmente cruel. Vemos batalhões de crianças lançando-se ao combate contra as linhas inimigas e morrendo aos montes. O conflito deixa um milhão e duzentos mil mortos. O Iraque utiliza o gás e continuará fazendo isso contra os curdos, que fogem então para a Turquia e o Irã.O Irã de Khomeini quer destruir Saddam Hussein a partir do interior, ajudando os oposicionistas "xiitas". Hussein descobre que o líder desse xiitas pró-iranianos faz parte da família Hakim. Toda a família Hakim é enforcada em Bagdá, em 1985.Em 1988, é assinado um cessar-fogo. Quem venceu? Cada um dos dois países pretende ser o vencedor. Mas o verdadeiro vencedor é a morte. A guerra modificou porém os sistemas de relações internacionais. O Iraque aproveita para se armar até os dentes adquirindo armas principalmente de três fornecedores: França, Brasil e Egito.É preciso dizer que a cooperação com a França é antiga. Data de 1970. A França entregou caças Mirage e emprestou os "Superétendards" em 1983 (o que lhe valeu a hostilidade do Irã).E o caráter de Saddam Hussein? Brutal e sanguinário, falso, pragmático, provavelmente corajoso e megalômano. Mas, como em todas as tiranias, a imprensa é inexistente. Hussein tem três ou quatro sósias. Poucas pessoas o conhecem bem e por isso faltam detalhes sobre sua vida.Sua saúde é conhecida. Freqüentemente ele é tratado por médicos de Paris. Aos 63 anos, ele está em boa forma, apesar de uma hérnia de disco já antiga. No verão do ano passado, Saddam fez regime para emagrecer.Em 1988, ele teve um princípio de câncer da linfa, gânglios, etc. A CIA lhe deu seis meses de vida. Mas um médico francês que o visitou em 2002 não observou nada de grave.Esta fama da medicina francesa remonta à época da guerra Irã-Iraque, entre 1980 e 1988. Às vezes, soldados iraquianos feridos vinham tratar-se em Paris.Mas é sobretudo a família de Saddam que recorre à medicina francesa. Temos assim alguns detalhes sobre a fantasmagórica e "caligulesca" família do líder iraquiano. Sobretudo a respeito de seu filho amado, Udai.Udai tem tudo do imperador romano da decadência. Versão "negra e sangrenta". Pode matar o marido de uma mulher para deitar-se com ela. Até mesmo Saddam Hussein achou que ele exagerou e, em 1996, o desqualificou para a sucessão.Em dezembro de 1996, o Porsche de Udai foi atacado no bairro elegante de Bagdá. Udai ficou gravemente ferido.Quem incentivou esse atentado? Adversários de Saddam Hussein? Ou o próprio Saddam Hussein? Uma equipe de médicos franceses dirigiu-se a Bagdá. Os médicos revelam hoje que Udai não tinha quatro balas no corpo, como Bagdá afirmou, mas sim trinta. Quatro cirurgiões franceses e um pneumologista o operaram e salvaram.Eis o que relata um desses médicos: "Mais tarde, me propuseram voltar ao Iraque. Eu me recusei. Eu não gostava de ser levado daquela forma por homens armados, com o Kalashnikov sobre o banco do carro?. Mas como Udai freqüentemente está doente, outros médicos franceses são solicitados.De vez em quando, dois cinesiterapeutas e um sexólogo são chamados a Bagdá (apesar disso, contrariando os boatos, ele não parece ser impotente). Eles ficam hospedados em um palácio e atendem ao chamado à beira da piscina. O chamado é feito durante a noite. Os médicos são levados para junto de Udai. Na verdade, Udai só vive à noite; durante o dia, é muito perigoso para ele.Este é o regime que oprime uma nação infeliz, um país que o Ocidente oprime também pelo embargo e outros métodos. Saddam Hussein é indiscutivelmente um animal feroz, um animal nocivo a seu povo, às minorias, como os curdos, etc.Sobre este ponto não existe sombra de dúvida. Todos estão de acordo, inclusive os homens e as mulheres que se insurgem contra a vontade de George W. Bush de fazer a guerra contra o Iraque.Um último ponto: a fortuna pessoal de Saddam se eleva a um bilhão e 200 milhões de dólares. É pouco em comparação com os 25 bilhões ou 30 bilhões dos "nababos" da península arábica. É pouco. Mas é monumental, sobretudo em comparação com um povo que passa fome.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.