O divórcio da realidade da Fox News e dos conservadores

Rede de TV americana apostou em quatro anos de demonização de Obama e viu-se obrigada a reconhecer vitória democrata em eleição

ALLISON, BENEDIKT, SLATE, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2012 | 02h08

Análise

Para um democrata como eu, a Fox News era o canal a ser assistido na noite de terça-feira. Quando ficou claro que Obama venceria a eleição, mudei rapidamente de canal da CNN para a Fox, ansioso para ver como a desestruturação da emissora aconteceria em tempo real. Afinal de contas, se a emissora tentou fazer de Obama um presidente de um mandato só -uma meta compartilhada com Partido Republicano-, falhou miseravelmente. Mas o que aconteceu, além de os opressores da grande imprensa terem escondido a verdade uma vez mais e os hispânicos terem sido admitidos nas áreas de votação?

Em 2010, com a ajuda da vitória do Tea Party nas eleições de meio de mandato, a Fox criou o "socialista-chefe" e estimulou teorias de conspiração como as de Glen Beck e a busca de Donald Trump pela certidão de nascimento de Obama. Como Conor Friedersdorf escreveu em um artigo na revista Atlantic sobre o fracasso da mídia conservadora, é fácil fechar-se em uma cápsula conservadora. Segundo ele, a Fox e a mídia conservadora são muito mais fechadas intelectualmente.

A Fox alimenta sua audiência com uma visão de mundo, que é comprada pelos espectadores. Assim, eleitores desinformados tornam-se eleitores desinformados e ficam chocados quando Obama vence: "Mas todo mundo não odiava esse cara?" Aliás, esse é um bom motivo para democratas não assistirem à MSNBC também.

Fridersdorf argumenta também que a Fox ilude não apenas seus espectadores, mas constitui um sistema de autoilusão, composto por comentaristas de rádio de direita e analistas conservadores. Todos alimentam esse divórcio da realidade até que o sistema exploda. Foi o que aconteceu na noite de terça-feira, quando a apresentadora Megyn Kelly , interpelada por um possesso Karl Rove, ex-assessor de George W. Bush, deixou o estúdio para consultar a produção sobre a decisão de declarar a vitória de Obama em Ohio. Tenho certeza de que a audiência da Fox, ainda confiante na vitória de Mitt Romney, adorou o drama de Kelly, subindo as escadas, uma cruzada conservadora em busca de estatísticos incompetentes.

Depois do chilique de Karl Rove no ar e o episódio com Megyn Kelly, a Fox teve de admitir que Obama vencera a maldita eleição. E agora o que resta para eles? Um grande número de telespectadores está bastante surpreso ao descobrir que foi derrotado por americanos que na verdade gostariam de ter acesso a um sistema de saúde melhor e não mantêm um quadro com a linha do tempo dos ataques de militantes ao Consulado Americano em Benghazi em sua sala de estar. Agora, essas almas desapontadas pensam: Por que o mundo não é da maneira que era na terça de manhã? Me pergunto agora onde elas buscarão essas respostas.

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