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Gilles Lapouge
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O drama africano e a França

O Conselho de Segurança da ONU autorizou ontem uma intervenção militar na República Centro-Africana, país entregue ao caos e à carnificina. Todos os tipos de armas estão sendo usados nos confrontos, desde as Kalashnikovs e os canhões até o facão, o arco e as flechas. O número de vítimas já é muito grande, principalmente crianças - na capital, Banqui, mais de 100 foram mortos ontem, segundo a agência Reuters.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2013 | 02h06

Que governo ordenará aos seus militares que intervenham nesse lugar onde existe todo tipo de perigo? Um contingente africano, a Missão Internacional de Apoio à República Centro-Africana e, evidentemente, a França, encarregada de apoiá-la.

Paris terá reuniões entre a França e alguns países africanos. Anuncia-se a presença de 40 nações africanas, o que representa uma verdadeira conquista. Entretanto, trata-se de uma conquista que pode ser definida como uma faca de dois gumes: de fato, sua necessidade e seu sucesso permitem crer que o fantasma que assombra os africanos desde o fim da colonização continua vagando nos antigos feudos franceses.

Esse fantasma tem um nome, é a política adotada por Charles De Gaulle na África desde 1960, que consistia na substituição da colonização brutal do século 19 por uma neocolonização, fundada sobre as redes ocultas, as amizades, o comércio, os "negócios", a corrupção, as pressões exercidas por Paris sobre seus antigos vassalos.

Há muitos anos, todos os presidentes franceses juram que a política adotada pela França na África acabou, está morta e enterrada. E depois, com o tempo, logo é possível perceber que os homens de negócios e os políticos franceses continuam pululando nas capitais africanas e, em caso de necessidade, os soldados franceses também são sempre eficazes, e a França está sempre alerta. Será preciso lembrar, entre outros, o drama de Ruanda em 1994? François Hollande faz portanto um jogo sutil. Quando ele parece ser o primeiro presidente francês decidido a romper de fato as inúmeras amarras que prendem as ex-colônias à França, as circunstâncias o levam, por duas vezes em menos de um ano, a enviar soldados para a África: na primeira vez, no Mali, em janeiro, porque os jihadistas estavam a ponto de instalar uma base terrorista no Sahel. E hoje, nas florestas da RCA para pôr fim à matança.

Paris multiplica as precauções para desarmar críticas e invejas. O governo lembra que todas as redes pouco claras e sinistras herdadas do passado foram desmanteladas pelos socialistas. E reitera que a operação é desinteressada. Essa é a palavra de ordem da cúpula de Paris: o objetivo único da intervenção é formar soldados da RCA e fortalecer a capacitação militar do pequeno país.

A mesma ladainha que devemos ouvir toda vez que o Ocidente envia soldados a algum lugar: a finalidade exclusiva é a "formação" de exércitos locais. Talvez seja verdade na intenção ou segundo a "consciência tranquila" dos líderes ocidentais, mas, na realidade, não passa de uma mentira.

Entretanto, observando a situação na República Centro-Africana, é preciso reconhecer que nos encontramos indubitavelmente às vésperas do horror. Neste país de estruturas carcomidas, assistimos a um drama recorrente na África: o enfrentamento entre as comunidades cristãs e as muçulmanas.

Não se trata, pelo menos por enquanto, de muçulmanos pertencentes à "nebulosa" islamista da Al-Qaeda, mas de camponeses que pertencem a essa ou àquela religião, e, na África, essas duas religiões se odeiam.

Portanto, somos ameaçados por um duplo perigo: de imediato, um banho de sangue nas lutas intertribais e principalmente inter-religiosas (muçulmanos contra cristãos). Mais em longo prazo, e se o caos perdurar, não há dúvida de que as milícias jihadistas, que existem nos países vizinhos, poderão tentar pôr as mãos nesse país extenuado. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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