O drama de Rangum

O que acontece na Birmânia (Mianmar, como se diz hoje) dias depois do reaparecimento triunfal e quase mágico, em Rangum, de Aung San Suu Kyi, a dama que luta com a garra de uma tigresa e a doçura de uma gata contra os militares que impõem sua lei de chumbo a este país há meio século?

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2012 | 03h02

Mantida na cadeia ou em prisão domiciliar durante 15 anos, Suu Kyi conseguiu obrigar os ditadores de Rangum a realizar eleições parciais, nesse país totalmente fechado ao mundo exterior.

E no dia 1.º de abril, seu partido, a Liga Nacional pela Democracia (NLD), obteve 43 das 45 cadeiras que estavam em jogo.

Foi um formidável tapa na cara dos generais, mas não suficientemente forte para abater a junta, porque os ditadores e seus homens ainda são cerca de dez vezes mais numerosos no Parlamento, em comparação aos 43 deputados que constituem o pequeno pelotão de Suu Kyi.

O que acontecerá agora? Para os militares, a vitória esmagadora de sua adversária democrata é evidentemente um revés, um fracasso humilhante, mas paradoxalmente esse fracasso fortalece a posição dos generais da junta no plano internacional. Reinserindo Suu Kyi no jogo, o presidente da república, general Thein Sein, devolveu de fato uma espécie de "virgindade" a esses generais que massacram Mianmar há 50 anos.

O general Thein Sein, que não tem fama de ser um gênio da política, conseguiu um golpe fantástico. Agora, ele encarna o processo de abertura e pode colher seus frutos: em lugar de ser banida da comunidade internacional, a junta volta a ser respeitável. E as sanções econômicas, que esgotam Mianmar e obrigaram a junta a organizar essas eleições paralelas, serão abrandadas. A Europa as reduzirá rapidamente, e os Estados Unidos em seguida a imitarão.

Mas, e depois? Depois, mesmo extremamente minoritário no Parlamento, o bloco de Suu Kyi e dos seus amigos terá um recinto onde poderá se expressar. Alguém voltará a se manifestar a respeito desse país, depois de meio século de mutismo. Os democratas terão não apenas uma tribuna, mas também a imunidade parlamentar, o que libertará a palavra ressuscitada.

E há mais uma lição: Mianmar mostra que a arma da "não violência" é poderosa. Foi essa arma que assegurou o triunfo das "revoluções de veludo" nos países comunistas, em 1989. Mais recentemente, foi ela que derrubou algumas tiranias do mundo árabe e que hoje enfrenta sem alarde o continente africano.

Na própria Rússia, se o autocrata Putin e seu absurdo "clone" Dmitri Medvedev, conservarem o poder, serão obrigados a levar em conta um povo cada dia mais insolente.

Isso nos mostra outra característica do levante de Rangum: por toda parte, e mesmo na China, a palavra pública destrói as mordaças graças a outra libertação: a libertação dos meios de comunicação modernos, a "rede", a internet, o twitter... Vetores velozes e infinitos, que transportam milhões de discursos fluidos, inatingíveis, insolentes, sutis, sem fronteiras, que circulam pelo mundo como milhões de ávidos animaizinhos que roem irresistivelmente com seus dentinhos pontiagudos as "grandes cabeças duras" dos ditadores. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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