O drone que matou meu neto no Iêmen

Abdulrahman tinha 16 anos, era cidadão americano, foi atingido por um míssil há dois anos e eu não tenho respostas

O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2013 | 02h10

Fiquei sabendo que meu neto de 16 anos, Abdulrahman - um cidadão americano -, fora assassinado após o ataque de um drone, avião não tripulado dos EUA, pelos noticiários da manhã em que ele morreu.

O míssil matou ele, seu primo e outros cinco civis em 14 de outubro de 2011, enquanto os garotos jantavam em um restaurante a céu aberto no sul do Iêmen.

Visitei o local mais tarde, quando consegui suportar a dor de ver onde ele havia passado seus momentos finais. Moradores me contaram que seu corpo explodiu e me mostraram o túmulo onde enterraram seus restos. Fiquei ali, perguntando por que meu neto estava morto.

Quase dois anos depois, não tenho respostas. Os EUA se recusam a explicar por que Abdulrahman foi morto. Só em maio que o governo Obama, em um suposto esforço de transparência, admitiu o que o mundo já sabia: que era o responsável pela morte. Mas o secretário de Justiça, Eric Holder disse apenas que Abdulrahman não fora "especificamente visado", suscitando mais perguntas.

Meu neto foi morto por seu próprio governo e a Casa Branca precisa responder por suas ações. Farei uma petição a um tribunal federal para requerer que isso seja feito.

Abdulrahman nasceu em Denver. Ele viveu nos EUA até os 7 anos, e depois veio morar comigo no Iêmen. Era um adolescente típico - assistia a Os Simpsons, escutava Snoop Dogg, lia Harry Potter e usava o Facebook. Ele tinha cabelos encaracolados, usava óculos como eu e exibia um sorriso largo e brincalhão.

Em 2010, o governo Obama pôs o pai de Abdulrahman, meu filho Anwar, nas "listas da morte" de suspeitos de terrorismo, sem nunca tê-lo acusado de um crime. Um drone tirou sua vida em 30 de setembro de 2011.

Em uma manhã de setembro de 2011, bem cedo, Abdulrahman saiu sozinho de casa, em Sana. Ia à procura do pai, que não via há anos. Ele deixou um recado para sua mãe explicando que sentia falta do pai e queria encontrá-lo. Pediu desculpas em um bilhete.

Dois dias depois de Abdulrahman partir, ficamos aliviados ao receber notícia de que ele estava a salvo e com primos no sul do Iêmen, de onde vem nossa família. Dias depois, Anwar foi morto numa província setentrional, a centenas de quilômetros dali. Depois da morte do pai, Abdulrahman disse que voltaria para casa. Foi a última vez que ouvi sua voz.

Um país que acredita que nem sequer precisa resp0nder pela morte de um dos seus não são os EUA que eu conheci. De 1966 a 1977, realizei um sonho de infância e estudei como bolsista da Fundação Fullbright, conquistando meu doutorado e depois trabalhando como pesquisador e professor assistente em universidades no Novo México, Nebraska e Minnesota.

Tenho lembranças carinhosas daqueles anos. Quando cheguei aos EUA como estudante, a família que me hospedou me levou para acampar perto do oceano. Fizemos viagens terrestres para lugares como Yosemite, Disney e Nova York. Foi maravilhoso.

Depois de retornar ao Iêmen, usei minha educação americana e minhas habilidades para ajudar meu país, servindo como ministro da agricultura e da pesca, e estabelecendo uma das principais instituições de ensino superior do país, a Universidade Ibb.

Abdulrahman costumava me contar que queria seguir os meus passos e estudar nos EUA. Não consigo suportar a lembrança daquelas conversas que tivemos.

Após Anwar ser colocado na lista do governo, mas antes de ele ser morto, a União Americana pelas Liberdades Civis e o Centro de Direitos Constitucionais me representaram numa ação judicial questionando a alegação do governo de que podia matar qualquer um que julgasse ser inimigo do Estado.

O tribunal anulou o caso, dizendo que eu não tinha direito de um abrir um processo e que o programa de eliminação seletiva do governo americano estava fora da jurisdição de qualquer corte.

Após a morte de Abdulrahman e de Anwar, movi outra ação contra Washington, buscando respostas e responsabilidades. Mais uma vez o governo relatou que seu programa de eliminações seletivas está fora do alcance da Justiça.

Acho difícil acreditar que isso possa ser legal em uma democracia constitucional baseada no sistema de equilíbrio dos três poderes. O governo matou um rapaz americano de 16 anos. Será que não deveria explicar por quê? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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