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O ecologista de Macron

Ministro do Meio Ambiente consegue acordo criticado por ambientalistas franceses

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2017 | 05h00

No governo do novo presidente Emmanuel Macron, alguns ministros são medíocres. Muitos são apagados, mas repletos de mérito e saber. Mas há uma joia. Um homem que dá inveja ao mundo inteiro. Trata-se do ministro da Transição Ecológica, Nicolas Hulot.

Um ortodoxo. Há 30 anos ele batalha por um mundo menos impuro, menos pútrido e menos envenenado. Sedutor, erudito e grande explorador, todos os governos de esquerda ou de direita tentaram atraí-lo para suas fileiras. Mas ele sempre se mostrou inflexível. Sabia muito bem que simplesmente teria as “asas cortadas” pelos investidores da grande indústria e seus representantes políticos. Preferiu continuar o seu combate solitário, em vez de se tornar ministro e se trair.

Por isso aguardávamos a primeira batalha de Nicolas Hulot. Foi há alguns dias, em Bruxelas. Os europeus tentavam, novamente, após quatro grandes fracassos, colocar fora de combate os chamados “perturbadores endócrinos” (compostos químicos que interferem no funcionamento do sistema endócrino) que contêm alguns pesticidas cujo efeito sobre a natureza e os homens é trágico. Pois a França, graças a Hulot, fez a Europa se voltar para o campo da razão e da saúde, da vida contra a morte. Hulot havia prevenido: ele seria intransigente!

No dia seguinte à reunião em Bruxelas a Europa se congratulou de ter enfim chegado a um acordo neste assunto. E Nicolas Hulot orgulhou-se desse grande sucesso. Nós todos aplaudimos, por Hulot em primeiro lugar, e depois porque são assuntos muito técnicos que não entendemos. Mas no decorrer dos dias a cortina se abriu e descobrimos que não foi assim tão interessante.

A primeira discordância se fez ouvir. O Figaro referiu-se ao “primeiro sapo que Hulot engoliu”, prevendo que “esse primeiro sapo precede um viveiro inteiro”. O que ocorreu, afinal?

Na verdade há quatro anos a EU tentava assinar esse texto, mas não o conseguia porque quatro países, entre os 28, se opunham: a República Checa, Suécia, Dinamarca e França. Ora, este ano, mediante algumas modificações insignificantes, a França mudou de campo. Na primeira salva de artilharia, a França de Hulot se juntou ao inimigo e mudou de campo.

Mas é o Figaro que afirma isto. Ora este é um jornal da direita retrógrada e Hulot tem simpatias pela esquerda. O que se disse é que esse artigo “viperino” não valia nada. Era mal-intencionado. Ontem foi a vez do Le Monde. E com forte artilharia. “A França não conseguiu nada. Ela capitulou.” 

O artigo mostra como o texto se apoiou em estudos de consultores da indústria publicados em revistas complacentes, para contrariar o consenso de entidades que agrupam milhares de cientistas. Mas foi o Le Monde que assim se exprimiu. Um jornal de centro-esquerda que considera Hulot um traidor, pois obedece às ordens deste “que não é nem de direita nem de esquerda” - Emmanuel Macron. O artigo no Le Monde não valeria nada, foi mal-intencionado também.

Mas as diversas publicações ecologistas, que admiram Hulot, seu saber, sua precisão e sua pureza, também estão consternadas. Uma delas, por exemplo, Le Sauvage, não esconde sua surpresa, sua consternação e seu desestímulo. 

Uma nota divertida nessa história triste: há alguns meses Generation Nature realizou um teste dos cabelos de sete personalidades do campo da ecologia, entre eles Nicolas Hulot. Nos cabelos do ministro foram encontrados 57 perturbadores endócrinos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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