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Adriana Carranca
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O efeito Lava Jato

Em abril de 2009, durante encontro do G-20, câmeras da rede britânica BBC capturaram uma conversa informal do presidente dos EUA, Barack Obama, com colegas: “Esse é o cara! Eu adoro esse cara! É o político mais popular do mundo!”, ele disse ao então secretário do Tesouro, Timothy Geithner, e ao primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd. Esse cara era o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

05 de março de 2016 | 06h59

Lula foi recebido no encontro como celebridade. Na foto oficial da visita ao Palácio de Buckingham, aparece sentado à esquerda da rainha Elizabeth II, lugar reservado ao mais importante entre os convivas. Meses depois, em novembro daquele ano, a Economist publicava em sua capa a imagem do Cristo Redentor como um foguete em decolagem. O Brasil fecharia o ano com um crescimento de 5% e a promessa de aceleração impulsionada, principalmente, pela Petrobrás e a expectativa sobre a entrada em operação dos “grandes campos de petróleo de águas profundas”, escreveu a revista, referindo-se ao pré-sal. 

Bem, aqui estamos. Terminamos 2015 com retração de 3,8% do PIB em relação ao ano anterior, o segundo pior desempenho entre os países da América Latina, ficando atrás apenas da Venezuela, resultado da “deterioração dos indicadores de inflação, juros, crédito, emprego e renda ao longo de todo o ano”, segundo o IBGE. A presidente Dilma Rousseff enfrenta processo de impeachment no Tribunal Superior Eleitoral e pode cair com o vice Michel Temer. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o do Senado, Renan Calheiros, são alvos da Lava Jato. Aliados políticos e donos das empreiteiras que mais faturaram em contratos públicos, como OAS e Odebrecht, estão presos. A notícia da operação da Polícia Federal na casa de Lula, levado a depor sob acusação de envolvimento no esquema colossal de corrupção da Petrobrás, percorreu o mundo. 

A instabilidade política e a crise financeira derrubaram a credibilidade do governo e o Brasil passou a ser visto como ambiente inseguro para investimentos externos, especialmente após o rebaixamento do crédito pelas três principais agências de classificação de risco, Standard & Poor’s, Fitch e Moody’s – o que, por sua vez, prejudica mais a economia, diminui seu poder de negociação em acordos comerciais e a influência política global. É uma espiral de declínio.

O efeito reverso também se aplica. Uma política externa robusta poderia proteger, ou amenizar, o impacto devastador da crise interna sobre a credibilidade no cenário internacional. Mas nunca foi prioridade para Dilma. Sob Lula, o Brasil liderou a criação e consolidação de Mercosul, BRICS e G-20; negociou junto com a Turquia um acordo nuclear com o Irã (embora ignorado pelos EUA, é considerado um marco da diplomacia), assumiu missões de paz, ampliou presença e relações comerciais, especialmente com África e mundo árabe; reabriu o debate por reforma no Conselho de Segurança da ONU. 

Com Dilma, o Itamaraty perdeu relevância, assumiu papel protocolar na mesa de negociações, aumentou a dívida com organizações internacionais. Com isso, perdeu o direito a voto em fóruns como o Tribunal Penal Internacional e a Agência Internacional de Energia Atômica. 

Dívidas com organismos internacionais não são novidade – o governo herdou dívida de US$ 200 milhões à ONU em 2003 e hoje deve algo como US$ 258 milhões. 

A corrupção também não foi inventada agora, nem a forma de atuar das empreiteiras. A Lava Jato descortinou o modelo brasileiro de fazer negócios entre empresas e setor público, como definiu o Ministério Público Federal. O esquema de delação premiada é caminho sem volta, inspirado na experiência italiana contra a máfia, em que um cartel leva a outro. A crise se aprofundará. Mas a transparência é a única saída para recobrar a credibilidade do Brasil e tirar o país do lodaçal em que se enfiou.

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