O efeito Sarkozy

Muitos na França querem ver o presidente pelas costas, mas aí pensam: não à esquerda, com sua indecisão e seus slogans estatais

É COLUNISTA, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2012 | 03h07

Na outra eleição de 2012, a mais iminente, há duas palavras apenas que merecem ser lembradas: liderança e mudança. O restante, como dizem os franceses, é blá-blá-blá. Se os franceses decidirem que liderança é mais importante em época de crise, eles rangerão os dentes e reelegerão Nicolas Sarkozy. Se quiserem mudar um presidente que nunca foi muito do seu agrado, eles vão - como Samuel Johnson disse de segundos casamentos - preferir a esperança à experiência e eleger o socialista François Hollande.

Diante disso, Hollande, mais esbelto e culto, como os franceses gostam que seus presidentes sejam, deveria vencer. Ele tem uma nítida vantagem nas pesquisas, embora ela esteja diminuindo. O índice de desemprego, o mais alto em 12 anos, está subindo para a casa dos dois dígitos. A reforma da previdência social tem sido impopular. O ânimo nacional é taciturno mesmo para padrões franceses. O euro agoniza. A esquerda não conquista a presidência desde que, em outra era, François Mitterrand saiu, há 17 anos. Em suma, esta é a eleição que a esquerda francesa não poderia perder. E ela pode fazer precisamente isso.

Visitei Paris há uma semana, persuadido de que Hollande venceria. Voltei achando que Sarkozy será o mais provável vencedor.

A coragem política do presidente é inegável: muita gente que não o suporta agora sente que pode precisar dele.

Hollande, o cavalheiro que frequentou escolas de elite de direita, tem charme e humor, mas nada fez para dissipar a ideia de que vacila na hora do aperto. Num apelo prolixo aos eleitores neste mês, publicado no diário Libération, ele conseguiu não mencionar o restante do mundo, exceto por uma condenação inevitável da "globalização desenfreada". Suas vagas exortações recendiam a hipocrisia autocomplacente.

Um momento revelador surgiu recentemente quando Hollande, falando sobre Sarkozy, usou a expressão "un sale mec" (um sujeito repugnante) - quase um insulto, mas o contexto em que ele usou o termo tem sido discutido.

Pouco importa. A linguagem forneceu um insight de seu subconsciente e o de uma ampla camada da burguesia francesa (Hollande é um burguês da esquerda). Para ela, Sarkozy, que frequentou as escolas erradas, é para sempre o estranho, o novo rico, o usurpador - um alpinista social "sujo" cegado pela ambição e indigno de personificar o Estado pelo mais alto cargo da Quinta República. Não é por menos que o idioma francês é rico em palavras - arriviste, parvenu - para personagens, como Rastignac, de Balzac, que transpuseram barreiras sociais para chegar ao topo.

Muita gente na França quer ver Sarkozy pelas costas. Eles sonham com o merecido castigo para esse homem de uma agitação sobrenatural, mas aí pensam: Oh, não! Não a esquerda com a sua indecisão, seus slogans estatais, seu colossal "imobilismo" que, de alguma forma, preservou a luta de classes como um lema quando a maior parte da esquerda europeia - como a alemã - avançou décadas atrás.

A esquerda francesa tem muitas contas a prestar. Não deveria passar despercebido a ninguém que a atual força da extrema direita na forma da Frente Nacional de Marine Le Pen deve muito à migração de ex-comunistas que jamais abrandaram a adoração a Stalin.

Ego. Mencionei a coragem de Sarkozy. Eu diria que é ela que o torna o político mais interessante na Europa. Antes disso, porém, minhas advertências: quando bajula a direita de Le Pen - o tratamento estarrecedor aos ciganos, a obtusa rejeição à candidatura da Turquia à União Europeia, a política de imigração cada vez mais restritiva - ele mostra o que tem de pior. O ego napoleônico pode se tornar irritante, embora sua linda mulher, Carla Bruni, tenha freado suas manifestações mais agudas.

No fim das contas, o que é imperdoável num político é ego e ambição que não permitam nenhuma causa maior que a da própria pessoa. Não é o caso de Sarkozy. Ele é um realizador e rompedor de tabus - trazendo a França de volta ao comando integrado da Otan (permitindo, com isso, a missão bem-sucedida na Líbia); declarando que amar os EUA é OK; reformando universidades e o sistema previdenciário contra uma resistência enorme; assumindo a honrosa causa líbia quando Jacques Chirac e Mitterrand a teriam posto de lado (e como fez a Alemanha vergonhosamente).

Mas a maior realização de Sarkozy diz respeito à Alemanha na crise do euro. A crise surgiu no momento em que a Alemanha se afastava do idealismo europeu - exaurida pelo esforço financeiro de unificação, irritada com os aproveitadores mediterrâneos, satisfeita com sua redenção no pós-guerra, mais inclinada aos ganhos materiais do que às grandes causas morais (fazendo mesuras a Vladimir Putin, evitando os combatentes líbios pela liberdade). Diante de tudo isso, e de uma Angela Merkel que o havia privadamente comparado a Mr. Bean, Sarkozy não esmoreceu. Ele perseverou.

Merkel foi persuadida, apesar da relutância, de que a causa europeia era mais importante que a má vontade de seus cidadãos com a Europa. As discretas medidas recentes do banco central europeu para inundar de euros o mercado e agir de fato como emprestador em último recurso - a despeito da prolongada resistência alemã - refletem, acima de tudo, um enorme esforço francês. As taxas de juros para bônus espanhóis e italianos estão caindo, o pânico está diminuindo.

Um ponto - um grande ponto - para Sarkozy. Liderança conta. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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