O Egito alcançará a união?

A esperança é a redação de uma nova Constituição, novas eleições e a formação de um governo de unidade nacional

É COLUNISTA, ESCRITOR, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ESCRITOR, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2013 | 02h02

Todos os que vêm acompanhando a política no Oriente Médio sabem que esta é uma região em que os extremistas querem ir até as últimas consequências e os moderados tendem a simplesmente ir embora.

Mas, uma vez ou outra - como aconteceu nas negociações de paz de Oslo, de 1993; no levante de sunitas iraquianos contra a Al-Qaeda em Anbar, em 2006; na Revolução dos Cedros no Líbano, contra a Síria e o Hezbollah em 2005 - os moderados decidem se levantar e firmar posição. E quando o fazem, os Estados Unidos precisam estar lá para apoiá-los. É a única esperança para que a região - tão envenenada pelo sectarismo e oprimida por um passado que sempre quer enterrar o futuro - tome um caminho mais positivo. Gostaria de incluir nesta categoria o levante popular/golpe militar da semana passada contra o governo egípcio dominado pela Irmandade Muçulmana - na realidade uma combinação de ambos.

Não chego a esta conclusão de maneira muito fácil. Teria sido preferível afastar do poder o presidente Mohamed Morsi, do partido da Irmandade Muçulmana, por meio de uma votação no prazo de três anos.

Isso obrigaria o partido a encarar a própria incompetência e o repúdio popular. Gostaria que o Exército egípcio, que tem seus interesses, não tivesse se envolvido. Mas a perfeição é algo que não se encontra mais no Egito hoje. Um grande número de egípcios achou que a demora de três anos contribuiria para levar o país ao precipício. A escassez de reservas para pagar as importações de combustíveis é tão grande que as filas nos postos de gasolina e os apagões se tornaram comuns em toda parte. Era evidente que Morsi não estava muito preocupado em governar e em nomear os melhores cidadãos para empreender uma série de tarefas. Estava preocupado em preparar para si e seu partido uma sólida posição no poder, de modo que, nas próximas eleições presidenciais, o Egito estaria na pior das condições, com um governo impossível de ser derrubado e um desastre econômico e social impossível de solucionar.

Basta um exemplo para revelar as prioridades da Irmandade. Parece incrível! A melhor solução para o Egito obter rapidamente moedas fortes para comprar alimentos e combustíveis seria o renascimento do turismo, que representa 10% da economia. Em 16 de junho, Morsi nomeou 17 novos governadores. Para Luxor, o coração da indústria do turismo do país, ele nomeou Adel al-Khayyat, um membro do grupo militante islamista Gamaa al-Islamiyya, que se declarou responsável pelo massacre de 58 turistas na região em 1997 - com o objetivo de acabar com o turismo e com o governo de Hosni Mubarak. O Gamaa abandonou a violência há dez anos, embora nunca tenha repudiado o ataque de 1997. O próprio ministro do Turismo de Morsi demitiu-se em protesto por esta nomeação, e Khayyat acabou saindo também. Mas isso dá uma ideia do que estava ocorrendo.

Em lugar de punir os egípcios por tentarem desesperadamente mudar a situação antes que chegasse à beira do abismo, os EUA deveriam usar sua ajuda e influência junto ao Exército para procurar tirar a maioria da crise.

Primeiramente, insistindo na libertação dos líderes da Irmandade, e na liberdade do partido de concorrer às próximas eleições parlamentares e de participar da redação de uma nova Constituição. Quem tentar governar o Egito por conta própria estará fadado ao fracasso, seja o Exército, a Irmandade Muçulmana ou os liberais. O Egito se encontra num fosso terrivelmente profundo, e só poderá sair dele será mediante um governo de união nacional, capaz de tomar decisões difíceis e de empreender tarefas árduas, mas imprescindíveis.

Se forem realizadas novas eleições e redigida uma nova Constituição, com a formação de um governo de unidade nacional - incluindo os islamistas - ainda haverá uma possibilidade de que o Egito consiga administrar todos os problemas que não pode mais evitar e evitar os problemas maiores ainda que não pode administrar. Mas esta é apenas uma possibilidade. É tarefa dos EUA exortar todos os partidos a empreenderem uma coalizão de unidade nacional deste tipo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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