O Egito de Mubarak

O Egito elege hoje novos deputados. Está prevista uma vitória esmagadora do Partido Nacional Democrata (PND), do presidente Hosni Mubarak. O Egito, segundo o jornal Al-Shorouk, é um país prático: "os resultados das eleições são conhecidos antes da votação." É preciso dizer que Mubarak tem uma longa experiência. Eleito em 1981, depois do assassinato de Anuar Sadat, foi continuamente reeleito, a cada seis anos, com votações que ultrapassam os 80%.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2010 | 00h00

No entanto, apesar da falta de suspense, a votação de hoje será observada por representantes de outros países. E por várias razões. A primeira é o fato de o Egito ser um país pobre e injusto, porém poderoso. É um dos gigantes da África, com 77 milhões de habitantes. Mubarak, que vem mantendo a estabilidade com métodos fortes, sabe há 30 anos fazer frente aos islâmicos. Na questão de Israel, deu provas de uma sensatez que contribuiu para evitar o pior.

No entanto, Mubarak, aos 82 anos, está doente e não voltará a se candidatar às eleições presidenciais do ano que vem. Sua herança será preservada? No dia em que seu "pulso de ferro" desaparecer, saberá o Egito proteger-se da ameaça islâmica? Muitas vezes, esquecemos que as raízes do islamismo extremista se encontram no Egito, onde a Irmandade Muçulmana prega o despertar do Islã, que resultou nas formas mais sórdidas do extremismo islâmico em vários outros países.

Sabemos que a organização, longe de desaparecer, continua agindo. Isto ficou claro nas últimas eleições legislativas, em 2005. Na ocasião, Mubarak se sentia suficientemente seguro para romper a pressão que a Irmandade Muçulmana exercia sobre ele desde 1981. O grupo, apesar da violência, havia conseguido eleger 88 deputados, colocando-se à frente da oposição parlamentar.

"Este ano, não podemos cometer esse erro", disse Ahmed Aboul Gheit, chanceler egípcio. E pode-se acreditar nele, considerando os últimos ataques à Irmandade Muçulmana: na semana passada, foram presos 200 integrantes do grupo. Desde 2005, os líderes da organização são seguidos de perto pelas forças de segurança e muitos vão para a cadeia.

Mas não é tudo. As sinistras façanhas do Hamas na Faixa de Gaza modificaram o conceito das democracias ocidentais. Há apenas seis anos, europeus e americanos achavam que já era o momento de "reintegrar" os islâmicos, mas os fatos demonstraram que muitos deles continuam sendo extremistas alucinados.

Nada seria mais nefasto para este infeliz Oriente Médio do que a conquista do poder pelos fanáticos da Irmandade Muçulmana. Portanto, tudo está preparado para que hoje Mubarak supere facilmente o obstáculo das eleições. Assim, ele poderá preparar seu sucessor, Gamal Mubarak, seu filho, que já comanda o PND. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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