O Egito deve se unir para votar

Povo está interessado em questões relacionadas à transição rápida para a democracia; governo interino deve ser claro

O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2011 | 03h05

"Para onde vai o Egito?", me perguntou recentemente Mohamed, um motorista egípcio. É a indagação que todo mundo se faz enquanto a revolução popular caminha para a nova temporada de eleições livres, nos próximos meses.

Nesse momento, o país que está no coração do mundo árabe tem dois desafios cruciais: catalisar e consolidar a transição democrática, restabelecendo a união entre os egípcios; e firmar um compromisso com a paz no Oriente Médio, com apoio popular.

Após a derrubada de Hosni Mubarak, o caminho da democracia tem sido difícil, mas o otimismo continua elevado. Lembro das milhares de pessoas em fila na Praça Tahrir, na entrada da Universidade Americana do Cairo, para o anúncio do Projeto Nacional para o Renascimento Científico e a construção da nova Cidade da Ciência e Tecnologia. O sentimento geral era que, finalmente, o Egito alcançaria o futuro que a ditadura lhe havia ocultado. Meu discurso transmitido pela televisão para toda a nação, naquela ocasião, intitulava-se Musr al-Amal - Egito: A Esperança.

Esse otimismo foi abalado por um fato ocorrido no fim de julho, quando houve no país a maior manifestação desde que Mubarak foi derrubado. Os islamitas ali reunidos pediam que o novo Egito fosse governado de acordo com a rigorosa sharia. As bandeiras agitadas no meio da multidão, semelhantes à saudita, provocaram manchetes como "Bin Laden está na Tahrir". Então, em setembro, ocorreu o ataque à Embaixada Israelense no Cairo, em resposta à morte de soldados egípcios pelas forças de Israel, no Sinai.

Apesar dos temores causados por esses acontecimentos, continuo otimista quanto ao futuro do Egito. Os egípcios não temem mais seus governantes, sabem como protestar e estão determinados a mudar o modo de governar. Mas, antes disso, precisam obedecer a alguns princípios norteadores. A sociedade egípcia deve concentrar as atenções em objetivos a longo prazo. O país precisa de um discurso construtivo sobre as questões fundamentais mais importantes, como os princípios da Constituição sobre religião e governo, a reforma do sistema educacional e a adoção de estímulos para a economia estagnada.

Seria um erro afastar injustamente quem estava ligado ao regime passado. Essas pessoas devem ser consideradas cidadãos com recursos que podem ser aproveitados na construção do futuro. O Egito não deve permitir que a energia de seus intelectuais fique no passado, ou que seus políticos se apaguem com a fatia, por menor que seja, do "bolo da revolução" que lhes venha a caber.

Assegurar a democracia exigirá que as divergências ideológicas e políticas surgidas nos últimos meses sejam, mais uma vez, ignoradas, para que ocorra a derrubada do sistema. Além disso, o Exército e o governo interino deverão ter um plano claro no futuro. Os egípcios temem que o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA) continue a principal entidade capaz de orientar a transição. Isso - e o fato de que o conselho demora na tomada de decisões - perturba a todos que se lembram das maquinações que frustravam as aspirações democráticas no regime anterior. O melhor remédio para essa suspeita é a clareza do CSFA quanto a um prazo para as próximas eleições e sua posição a respeito da lei de emergência, dos tribunais militares e do voto dos egípcios no exterior. O país precisa de estabilidade e segurança para dar os próximos passos. Uma das medidas para que o público volte a confiar no governo seria o estabelecimento de um conselho de cidadãos eminentes, que possa servir de mediador entre a sociedade civil e o governo enquanto ocorrer a transição. A confusão e a desconfiança atuais ameaçam o avanço da "revolução econômica", da qual, em última análise, depende a revolução.

Tensão com Israel. Seria um erro considerar que as tensões atuais entre Egito e Israel possam ameaçar o tratado de paz entre os dois países. Desde a revolução, os egípcios estão convencidos de que o povo deve decidir que relação deverá existir com Israel. A paz desejada na região agora exige a paz com 90 milhões de egípcios e não com um único governante.

Todo o Oriente Médio começa a despertar. O espírito da primavera árabe se estenderá aos palestinos, que exigirão o fim da ocupação como os egípcios exigiram o fim da ditadura. Em resposta, as principais potências não deveriam se comprometer com o fim do conflito, mediante a independência de um Estado palestino dentro das fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias, de 1967. Esse projeto atende aos interesses da comunidade internacional porque minimizará a violência e concentrará as energias do povo palestino na construção de seu próprio Estado, em vez de se preocupar com o conflito com Israel. Nesse momento, quem usar o conflito árabe-israelense para proveito político será culpado de crime contra a esperança.

A principal prioridade é não permitir que as esperanças e aspirações da primavera árabe se frustrem por causa da desunião ou da manipulação de emoções exaltadas que, durante muito tempo, evitaram a questão central da paz no Oriente Médio. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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