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‘O EI é violento, mas mais eficiente que o governo’

Premiado jornalista britânico conta trajetória do grupo radical islâmico em livro que será lançado no Brasil

Entrevista com

Patrick Cockburn, jornalista de ‘The Independent’

Renata Tranches , O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2015 | 03h30

Os EUA não se deram conta de que sua guerra ao terror não foi capaz de derrotar a Al-Qaeda no Iraque, permitindo que o terreno se tornasse propício para o surgimento do Estado Islâmico. A avaliação é do jornalista e correspondente no Oriente Médio do jornal britânico The Independent em seu livro A Origem do Estado Islâmico, que será lançado este mês no Brasil pela editora Autonomia Literária. Em entrevista ao Estado, ele afirma que, na Síria, a revolta popular que se converteu em uma guerra civil foi a oportunidade para o grupo jihadista avançar no país. 

Qual sua ligação com o Iraque e quando começou a escrever sobre o Estado Islâmico? 

Visito o Iraque há anos, desde 1977, pouco antes da chegada ao poder de Saddam Hussein. E, desde então, tenho voltado muitas vezes, por longos períodos. Comecei a tomar consciência de que o Estado Islâmico estava se tornando cada vez mais forte em 2013. Observei que o grupo estava crescendo e se fortalecendo cada vez mais e começara a operar livremente em um território que ia do oeste do Iraque até uma região não muito longe do Mediterrâneo, na Síria. Mas as pessoas de fora não estavam prestando muita atenção nisso. No entanto, estava ficando muito óbvio quão forte era o EI. Em janeiro de 2014, eles capturaram Falluja e o Exército iraquiano não foi capaz de retomá-la. Tenho escrito sobre isso há um bom tempo. 

Por que o Ocidente não estava atento ao que ocorria no Iraque e na Síria? 

No Iraque, eles não se deram conta que a Al-Qaeda, que é predecessora do Estado Islâmico, não tinha sido destruída. Ao contrário do que pensavam, ainda tinha alguma força. Não perceberam que a revolta de 2011 na Síria acabou dando muitas oportunidades para o Estado Islâmico. O grupo tem aliados muito próximos na comunidade árabe sunita, o que, no Iraque, representa cerca de 20% da população. Mas na Síria, eles são 60% da população, então havia muito mais oportunidades para o Estado Islâmico se desenvolver na Síria após 2011.

Quão forte foi esse apoio? 

Eles tiveram o apoio de aliados no Iraque e na Síria, que foi muito mais amplo entre a população sunita. Essas pessoas não necessariamente gostavam do EI, mas temiam ainda mais o Exército iraquiano, o Exército sírio e até mesmo as milícias xiitas. Eles sentiam não ter a quem mais recorrer. Mas o mais importante em uma guerra não é quão popular você é, mas quantas pessoas estão preparadas para morrer ao seu lado e o EI tem muitas pessoas que são completamente fanáticas e preparadas para morrer. Eles também são bastante organizados. Quando tomaram Ramadi, em maio, imediatamente após matarem muitas pessoas levaram energia para um hospital. Muitos hospitais estavam fechados e eles levaram alguns médicos da Síria e forneceram energia para cidade. Em geral, o grupo é extremamente violento, mata todo mundo que se opõe a eles. Mas de muitas maneiras são mais eficientes do que o governo iraquiano. 

O sr. voltou ao Iraque para atualizar o livro já pronto. Como é a dinâmica dessa cobertura? 

É bem complicado. Qualquer tema político no Iraque e na Síria é muito complicado. Você 

não tem um conflito de apenas dois lados. Você tem uma crise, mas são como cinco ou seis 

crises dentro dela. No Iraque e na Síria é sempre sunitas contra os xiitas, Irã contra Arábia Saudita, secularistas contra religiosos, são diferentes crises e diferentes guerras. Cada uma delas se sobressaindo em algum momento. 

Com quem exatamente o sr. conversou para escrever o livro? 

Primeiramente, como tenho estado no Iraque há um bom tempo, e na Síria bastante também, conheço muitas pessoas. Claro que com o Estado Islâmico é um pouco diferente, já que não posso ir até a área controlada por ele sem ser morto. O que eu fazia era conversar com pessoas que tinham acabado de abandonar o Estado Islâmico. Conheci muitas pessoas que costumavam ser combatentes. Enfim, conversei com uma gama de diferentes pessoas tentando capturar uma compreensão mais objetiva sobre como é a vida do Estado Islâmico. 

O que o sr. acha da maneira como o EI está sendo combatido? É efetivo? 

O método para combater o Estado Islâmico é o militar, a campanha americana de bombardeios aéreos. O que significa, principalmente, que os países estão promovendo bombardeios controlados pelos EUA. Os americanos também estão dando apoio em treinamento militar para o Exército iraquiano. O problema é que o EI tem muitos inimigos e eles estão muito divididos. No Iraque, há pelo menos cinco diferentes grupos que estão combatendo o EI. Há os EUA, o Exército iraquiano, que não é exatamente forte, as milícias paramilitares xiitas, os curdos. Na Síria, é completamente diferente. Os americanos não querem dar muito apoio ao Exército de Bashar Assad. Eles apoiam os curdos sírios, que combatem alguns alvos do Estado Islâmico. Mas o grupo precisa ser combatido na região onde está o Exército sírio. 

O acordo nuclear com o Irã muda algo no cenário? 

É uma pergunta que as pessoas estão se fazendo no Iraque e na Síria. Não significa necessariamente que, após impedir o país de obter uma arma nuclear, o Irã estará mais próximo do Ocidente para combater o EI. Mas torna mais fácil não tê-lo mais na posição de um Estado pária como antes. Talvez vejamos mais cooperação. 

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