O elefante branco do 11/9

Grandes empresas terão subsídio para ocupar prédio erguido no lugar das torres gêmeas com dinheiro de pedágios

Joe Nocera, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2011 | 00h00

Não há nada errado - aliás está tudo muito certo - com a construção de um monumento nacional em memória das quase 3 mil pessoas mortas nos ataques de 11 de setembro de 2001. Os pavorosos acontecimentos daquele dia traumatizaram os EUA - e transformaram. Os mortos merecem ser lembrados. Longe de mim sugerir o contrário.

O que quero destacar é que o que está sendo construído em nome do 11 de Setembro - uma fantástica obra de US$ 11 bilhões de dólares financiada pelo governo nos cerca de 6,5 hectares de terra que agora chamamos de Marco Zero - é um exemplo de quase tudo o que está errado no governo moderno. Quando o local do World Trade Center estiver finalmente concluído, incluirá uma estação de trem sofisticada cujo custo superou US$ 1 bilhão. O memorial, que abrange o espaço antes ocupado pelas duas torres gêmeas, está tão atrasado que agora a construção teve de ser acelerada para estar concluída no décimo aniversário da tragédia.

E há ainda o World Trade Center 1, que deveria ser concluído em 2013 e acrescentará 2.390m² de escritórios a uma cidade que não precisa de nada disso, a um custo tão elevado que se constituirá numa sangria de recursos para as próximas décadas.

Onde está o Tea Party quando a gente precisa dele? No ano passado, escrevi sobre o World Trade Center 1, salientando que com um orçamento de US$ 3,3 bilhões era o edifício de escritórios jamais construído nos Estados Unidos. Na época, Richard Gladstone, o gerente do projeto para a Autoridade Portuária de Nova York e New Jersey, encarregada da reconstrução do Marco Zero, me disse que, apesar do custo, o novo arranha-céu não pesaria para os que trabalham na cidade e pagam pedágio para atravessar as seis pontes e túneis operados pela agência.

Essa afirmação não corresponde à verdade. A Autoridade Portuária, com a cumplicidade de Andrew Cuomo e Chris Christie, os governadores de Nova York e New Jersey, que supervisionam a agência, aprovaram uma série de aumentos dos pedágios tão onerosos que, até 2015, um usuário comum que utiliza a Ponte George Washington terá de pagar US$ 62,50 por semana para ir ao trabalho.

O que irrita é o cinismo dos esforços para conseguir os aumentos. Em primeiro lugar, a Autoridade Portuária disse que, a não ser que aumentasse os pedágios, teria de "desacelerar ou mesmo parar" a construção do World Trade Center 1. Embora esta solução fosse extremamente improvável, provocou um tumulto nos sindicatos da construção, como era seu objetivo. Eles começaram a pedir favores aos políticos.

A Autoridade Portuária queria originalmente propor dois aumentos de US$ 2, espaçados em alguns anos. Mas os políticos dos gabinetes de Cuomo e de Christie sugeriram que a agência apresentasse um aumento inicial muito mais alto - permitindo que os dois governadores parecessem heróis quando "convencessem" a Autoridade Portuária a reduzir os aumentos.

Os governadores também se queixaram do desperdício e das fraudes na Autoridade Portuária, pois sabiam que o problema real era o fato de US$ 3,3 bilhões - dinheiro que poderia ter sido gasto nas melhorias tão necessárias da infraestrutura - terem sido desviados para um elefante branco no Marco Zero.

Compreendo que deva ser difícil, mesmo para um conservador em matéria fiscal como Christie, criticar abertamente o World Trade Center 1. Sua reconstrução tem uma enorme importância simbólica para muitas pessoas. George Pataki, o ex-governador de Nova York, que mais pressionou pela reconstrução, originalmente batizara o edifício de Torre da Liberdade.

Patriotismo. Mas editoriais recentes publicados por tabloides de Nova York que reclamavam dos aumentos dos pedágios falaram com muita cautela dos custos escandalosos do World Trade Center 1. Apesar do manto de patriotismo no qual seus defensores sempre se esconderam, é realmente um enorme edifício de escritórios sofisticado. Um edifício com tamanho desperdício que obrigará os trabalhadores de New Jersey e Nova York a pagar por décadas futuras. Um edifício que apenas o governo poderá amar.

Ultimamente, os defensores do projeto começaram a dizer que a economia do projeto será maior. Eles ressaltam que a Condé Nast, a gigante editorial, concordou em ser o inquilino âncora. O que eles não dizem é que o aluguel da Condé Nast corresponde a menos da metade do custo da superfície de cerca de 900 metros quadrados que ocupará. Em outras palavras, uma companhia que publica revistas caras para a classe alta se beneficiará de um enorme subsídio do governo no futuro previsível.

E quem pagará pelo subsídio? Os funcionários dos Correios que utilizam o Túnel Lincoln para ir ao trabalho. A classe média de New Jersey que usa a Ponte George Washington. Os bombeiros e os policiais que moram em Staten Island. Portanto, em nome do 11 de Setembro, Nova York e New Jersey impõem mais um ônus econômico à classe média já sobrecarregada. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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