Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

O elo entre Biden e Dilma Rousseff

Como o atual candidato democrata conheceu a ex-presidente do Brasil e como era a relação entre os dois

Levy Teles, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2020 | 18h04

O encontro de junho de 2014 em Brasília entre a então presidente do Brasil, Dilma Rousseff, e o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, era um sinal de alívio num momento tenso. Um ano antes, as relações entre Brasília e Washington estavam abaladas após a informação de que a Agência de Segurança Nacional americana (NSA) espionava a chefe do executivo do País e os principais membros do governo.  

O tom descontraído da conversa foi uma surpresa, ainda mais quando a petista brincou e chamou o atual candidato democrata à presidência americana de “sedutor.” 

A ligação entre Biden e Dilma, aliás, nasce indiretamente de uma fatalidade na vida do democrata, em 1972, como relembra uma reportagem da revista America’s Quaterly

Aos 30 anos, Joe acabara de tornar-se o senador mais jovem dos EUA e, em dezembro daquele mesmo ano, um caminhão bateu contra o carro da família. 

A mulher e a filha de 18 meses do democrata morreram instantaneamente. Os outros dois filhos dele, Joseph e Robert, ficaram gravemente feridos. 

Preocupado com o futuro político de uma estrela em crescimento, o Comitê Nacional Democrata chamou Wes Barthelmes, um dos principais assessores do partido, para cuidar de Biden. 

Biden e Barthelmes se tornaram próximos. Uma das irmãs de Barthelmes, Jane, casou-se com um alemão e se mudou para o Sul do Brasil. Aqui, teve um filho chamado Thomas. 

Thomas Traumann viria a ser o secretário de comunicação de Dilma Rousseff.

Quando Traumann se apresentou a Biden, num encontro em maio de 2013, o democrata teve uma surpresa. “Seu tio foi um dos melhores redatores de discursos do Capitólio!” exclamou o então vice-presidente.

A conversa

“Foi uma das melhores reuniões que ela (Dilma) já teve com um líder estrangeiro”, relembrou Traumann em uma entrevista à America’s Quaterly. “Ela o respeita. E mais importante: ela gosta dele.”

Durante a gestão de Barack Obama, Joe Biden foi o homem que determinou os rumos da política externa americana na América Latina - especialmente no Brasil. Foi ele quem, em setembro de 2013, conversou com Dilma por telefone para tentar dialogar sobre a espionagem e ouvir as queixas da presidente, que exigia mais explicações sobre o caso. 

O encontro de junho de 2014, quando Dilma chamou Biden de “sedutor”, foi arranjado um mês antes, quando o democrata conversou com a presidente por telefone e avisou que estaria em Natal em junho, no dia 16, para acompanhar a Copa do Mundo e a seleção americana contra Gana, segundo a Associated Press. Em seguida, seguiria rumo à Brasília. 

Foi o mesmo Biden que foi ao Brasil saudar Dilma na cerimônia de posse do segundo mandato, em 2015, e formalizou um novo convite para ela ir até Washington após a presidente ter cancelado a viagem à Casa Branca em setembro de 2013. No dia 30 de junho daquele ano, Dilma voltaria aos EUA para encontrar-se com Barack Obama. 

Assuntos ambientais lideram relação com Brasil

Antes da chegada de Dilma aos EUA, em 2015, Biden teve uma conversa por telefone com a presidente brasileira, mostrou o Washington Post, na qual os dois conversaram sobre assuntos ambientais. 

No primeiro debate presidencial americano de 2020, em setembro, Biden mencionou o Brasil e afirmou que mobilizaria um plano com várias nações para ceder US$ 20 bilhões para o País proteger a Amazônia e ameaçou sanções econômicas a Brasília em caso de descumprimento de regras ambientais.

Isso fez o presidente Jair Bolsonaro reagir imediatamente. “Nossa soberania não é negociável”, respondeu. 

Em 2014, foi Biden quem colaborou com o Brasil com informações sobre a ditadura. Em junho daquele ano, ele confirmou que o governo americano deu início a um processo de "abertura e compartilhamento" de documentos para ajudar nos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade.

Jake Sullivan, assessor de política externa do candidato democrata, disse ao New York Times que um governo Biden buscaria trabalhar em colaboração com o Brasil, mas que a relação entre os líderes provavelmente seria tensa. “Ele não hesitaria em desafiar Bolsonaro em questões relacionadas à degradação ambiental, à corrupção e outros desafios que o presidente do Brasil está enfrentando”, disse ele.

Pauta anticorrupção 

Quando Dilma sofreu o impeachment em setembro de 2016, foi Biden que se pronunciou em nome do governo americano sobre o processo. Ele reconheceu que o processo ocorreu de acordo com a Constituição e o governo americano trabalharia com Temer.

“O Brasil é e continuará a ser um dos parceiros mais próximos dos EUA na região porque, entre democracias, as parcerias não são baseadas nas relações entre dois líderes, mas no duradouro relacionamento entre os dois povos”, afirmou.

Semanas depois, encontrou-se com o presidente brasileiro. Os dois discutiram sobre cooperação econômica, se uniram para promover a imigração legal e aprofundar a cooperação na América Central e Haiti. 

No entendimento da equipe do democrata, a pobreza e violência são um dos principais fatores de migração brasileira para os EUA. Uma das agendas do governo Biden na América Latina para conter o fenômeno é promover uma mobilização contra a corrupção na América Central. 

Segundo o New York Times, assessores de Biden dizem que, em caso de vitória, buscariam reviver a campanha anticorrupção que desencadeou terremotos políticos nas Américas a partir de 2014, mas em grande parte estagnou nos últimos anos.

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