AFP/Yuri Gripas
AFP/Yuri Gripas

O encolhimento político dos EUA

Em 14 meses, Trump retirou os EUA de três acordos multilaterais importantes

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2018 | 03h00

O tempo dirá se a semana que passou entrará para a história como aquela em que os Estados Unidos romperam o acordo nuclear com o Irã ou deram um importante passo rumo a um acordo nuclear com a Coreia do Norte, ao definir data e local da reunião entre Donald Trump e Kim Jong-un. Dependerá da extensão dos danos causados pela primeira decisão e dos resultados da segunda.

Trump acredita que Kim decidiu negociar depois de se convencer de que o presidente americano estava disposto a inviabilizar o seu regime, por meio de sanções econômicas efetivamente severas, como as que agora começa a impor ao Irã, se ele não se curvasse ao seu desejo.

De fato, as razões apresentadas por Trump para romper o acordo com o Irã são dessa ordem: do desejo pessoal. As inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), cujos relatórios estão disponíveis em seu site, atestam o cumprimento do acordo pelo Irã, mas Trump não contesta isso. 

Suas objeções são o programa de mísseis convencionais do Irã e o apoio do país à milícia xiita Hezbollah, no Líbano, e ao regime sírio – questões que não fazem parte do acordo, e os europeus, na tentativa de salvá-lo, ofereceram negociar separadamente com o Irã, sob pena de impor novas sanções. 

Isso não foi suficiente porque, como ficou claro, Trump decidiu inviabilizar o Irã economicamente, para que seu regime se curve a seu desejo ou caia.

Portanto, do ponto de vista de Trump, o avanço do degelo com a Coreia do Norte – materializado na libertação de três cidadãos americanos – é resultado direto da coerência de seu desejo e da firmeza com que o impõe. 

A coerência vem de ter prometido rasgar o acordo com o Irã e “comer um hambúrguer” com Kim antes mesmo de assumir a presidência. A firmeza está na disposição de impor sanções severas contra um e outro.

Credibilidade. Logo, Trump valoriza a credibilidade. A sua, bem entendido. Não a de seu país. Em 14 meses, o presidente retirou os Estados Unidos de três acordos multilaterais, cuja assinatura foi precedida de anos de árduas negociações, nas quais os interesses americanos, por sua importância, tiveram de ser contemplados, influindo decisivamente em seu formato final: a Parceria Trans-Pacífico, o Acordo do Clima de Paris e, agora, o do Irã. Ele ameaçou sair de um quarto, o Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), firmado com México e Canadá.

O direito do presidente de rompê-los é inquestionável. Ele foi eleito (não pela maioria, mas isso é um problema das leis americanas) prometendo fazer isso. A preocupação é de outra natureza: o que acontecerá com a credibilidade do Estado americano? 

Governos vêm e vão. O Estado é algo permanente. Essa credibilidade já fora comprometida em 2013 no Oriente Médio, quando o então presidente Barack Obama descumpriu a ameaça de retaliar o regime sírio se ele empregasse armas químicas contra o seu povo. 

Quando ordenou o bombardeio de alvos sírios, em reação ao uso, mais uma vez, de armas químicas, no mês passado, Trump citou esse descumprimento por parte de Obama. Quando se tem a credibilidade comprometida, é preciso tomar medidas excepcionais para restaurá-la. 

O mesmo se aplica às suspeitas de ligações escusas entre o time Trump e a Rússia. Se essas investigações avançarem, um caminho para o presidente será adotar medidas drásticas contra a Rússia para provar que coloca a “América em primeiro lugar”.

Curto prazo. Com tantas rupturas, os Estados Unidos só têm credibilidade hoje para firmar acordos cercados da expectativa da curta duração, sujeitos aos ciclos da democracia. Isso convém a Kim: seu pai e seu avô também ganharam tempo com acordos descumpridos com os Estados Unidos, e sua intenção não é abdicar da condição recém-conquistada de potência nuclear, mas apenas garantir a sobrevida de seu regime. Já para o mundo, o encolhimento político dos Estados Unidos é empobrecedor.

 

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