O encontro de Berlim

Hoje será um dia pesado para François Hollande. Pela manhã, ele assume a presidência da França. Em seguida, recebe algumas figuras de praxe, visita o Túmulo do Soldado Desconhecido. Depois, faz um passeio para manter contato com o público. No fim do dia, parte para Berlim. No programa: salvar a Europa.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2012 | 03h05

Berlim será seu batismo de fogo. Como ele se entenderá com a chanceler Angela Merkel? Que remédios ambos devem prescrever para a Europa? Os métodos de Merkel são conhecidos. Segundo ela, só um rigor implacável fará com que Grécia, Espanha, Itália e Portugal escapem do desastre.

A análise de Hollande é outra. Para ele, o rigor é importante, desde que associado a medidas que promovam o crescimento. Ele pretende renegociar o terrível pacto orçamentário imposto pela chanceler alemã aos países europeus. Hollande quer a revisão desse acordo, que seu rigor seja abrandado, acrescentando uma seção prevendo que promovam o crescimento. Merkel já respondeu a essa questão: "Não".

A posição de Hollande, presidente novato, diante de um peso pesado como Merkel, é débil. No entanto, ele tem alguns trunfos.

No domingo, a chanceler recebeu uma bofetada. O poderoso Estado da Renânia do Norte-Westfalia infligiu uma dura derrota eleitoral para ela. Hannelore Kraft, do Partido Social-Democrata (SPD), que já dirigia essa região, aumentou sua hegemonia, derrotando o candidato de Merkel.

Flexibilização. Boa notícia para o novo presidente francês. Não só porque ele é socialista, como Hannelore Kraft, mas, sobretudo, porque o SPD também gostaria de tornar flexível o rigor cego que serve de bússola para a chanceler.

Como Hollande, o SPD quer que o pacto orçamentário, que ainda não foi ratificado pelo Parlamento alemão, seja completado por medidas que favoreçam o crescimento econômico.

Um outro elemento: o primeiro encontro entre o francês e a alemã ocorre no momento em que a crise atinge um ponto em que o retorno é impossível. A Grécia, que vem sendo ajudada há dois anos por Merkel, está no fim de suas forças. Sem dinheiro, sem governo, desesperada, ameaçada por comunistas extremistas e neonazistas.

Atenas é um barco à deriva. Claramente, o remédio oferecido por Merkel, que custou à Europa centenas de bilhões de euros e levou a Grécia ao desespero, causando suicídios e milhões de mendigos, não teve o mínimo resultado. A revista Der Spiegel, que até agora defendia a permanência da Grécia na zona do euro, mudou de ideia. "Acrópole, adeus", é o título de a matéria de capa publicada nesta semana (mais informações no Caderno Economia).

Quem dera fosse só a Grécia. Mas não. O fato é que a Espanha também está revoltada. Centenas de milhares de "indignados" gritam o seu pânico. Na Itália, o grupo chamado Federação Anarquista Informal (FAI) fez explodir coquetéis molotov e tem feito outras ameaças. Como não pensar na infâmia das Brigadas Vermelhas, que ensanguentou a península nos anos 70 e 80? É nesse cenário que se levantam as cortinas para o primeiro encontro entre Hollande e Merkel.

O que quer dizer que ambos estão condenados a se entender, caso a ideia seja mesmo impedir que o fogo se espalhe por toda a casa europeia. O que é exigido deles é uma façanha: balizar juntos o caminho invisível que passa entre o rigor glacial e uma ajuda prudente ao crescimento econômico. Se é que esse caminho realmente existe. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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