Jeenah Moon/Reuters
Jeenah Moon/Reuters

O enigma da covid-19: por que o vírus assola alguns lugares e poupa outros?

Especialistas estão tentando descobrir por que o coronavírus é tão caprichoso. As respostas podem determinar como e por quanto tempo nos proteger

The New York TImes, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2020 | 13h43

A covid-19 matou tantos no Irã, mais de 6 mil, que o país recorreu a enterros em massa, mas no vizinho Iraque há menos de 100 vítimas. A República Dominicana registra 7,6 mil casos de infecção, enquanto cruzando a fronteira os haitianos têm 85. Metrópoles como Nova York, Londres e Paris foram castigadas, enquanto Bangcoc, Nova Délhi e Lagos até agora se mantêm poupadas.

Por que o vírus devastou alguns lugares e deixou outros relativamente intocados? Eis uma questão que vem gerando inúmeras teorias e especulações, mas nenhuma resposta definitiva. Saber essa resposta pode ter implicações profundas na maneira como os países combatem o vírus, para determinar quem está sob risco e saber quando será seguro sair de casa.

Já existem centenas de estudos em andamento em todo o mundo, analisando como a demografia, as condições pré-existentes e a genética podem afetar a grande variação do impacto.

Médicos da Arábia Saudita estão estudando se as diferenças genéticas podem explicar os diferentes níveis de gravidade nos casos de infectados pelo novo coronavírus entre os sauditas, e cientistas do Brasil estão pesquisando a relação entre a genética e as complicações da covid-19. Equipes de vários países estão analisando se medicamentos comuns para hipertensão podem agravar o quadro da doença e se determinada vacina contra a tuberculose pode fazer o oposto.

Muitos países em desenvolvimento com climas quentes e populações jovens escaparam do pior, sugerindo que a temperatura e a demografia podem ser fatores determinantes. Mas, países tropicais que estão registrando ondas crescentes de epidemia, como Peru, Indonésia e Brasil, jogam água fria nessa ideia.

Medidas draconianas de distanciamento social e lockdown antecipado foram claramente eficazes, mas Mianmar e Camboja não as adotaram e estão relatando poucos casos.

Uma teoria que ainda não foi comprovada, mas que é impossível de refutar, aponta que talvez o vírus ainda não tenha chegado a esses países. A Rússia e a Turquia pareciam bem até que, de repente, já não estavam mais.

O tempo ainda pode ser o fator mais importante: a gripe espanhola que eclodiu nos Estados Unidos em 1918 parecia ter diminuído durante o verão, mas voltou ainda mais mortal no outono e teve uma terceira onda no ano seguinte. Antes de se encerrar, acabou chegando a lugares distantes, como as ilhas do Alasca e do Pacífico Sul, e infectando um terço da população mundial.

“Estamos só no início desta doença”, disse Ashish Jha, diretor do Instituto Global de Pesquisa em Saúde da Universidade de Harvard. “Se fosse um jogo de beisebol, estaríamos apenas na segunda entrada, e não há razão para pensar que, até o fim da partida, as partes do mundo que hoje parecem intactas não estarão como os outros lugares”.

Médicos que estudam doenças infecciosas em todo o mundo dizem que ainda não têm dados suficientes para esboçar um quadro epidemiológico completo e que as lacunas de informação em muitos países fazem com que seja perigoso tirar qualquer conclusão. A testagem é lastimável em muitos lugares, o que quer dizer que o progresso do vírus e os números de mortes certamente estão muito subnotificados.

Ainda assim, alguns padrões mais amplos já estão claros. Seria difícil deixar de notar lugares com registros péssimos, sistemas de saúde em colapso, enterros em massa ou hospitais sem capacidade para atender milhares de doentes, mas vários lugares simplesmente insistem em ignorar essa realidade – pelo menos por enquanto.

Entrevistas com mais de duas dezenas de especialistas em doenças infecciosas, autoridades de saúde, epidemiologistas e acadêmicos de todo o mundo sugerem quatro fatores principais que podem ajudar a explicar por que o vírus prospera em algumas regiões e não em outras: demografia, cultura, ambiente e a velocidade das respostas do governo.

Cada possível explicação vem com consideráveis advertências e desconcertantes evidências em contrário. Por exemplo: se a população idosa é a mais vulnerável, o Japão deveria aparecer no topo da lista, mas está longe disso. Ainda assim, estes são os fatores que os especialistas consideram os mais convincentes.

Juventude

Os jovens são mais propensos a apresentar casos leves ou assintomáticos, os quais são menos transmissíveis, disse Robert Bollinger, professor de doenças infecciosas da Johns Hopkins School of Medicine. Os jovens também são menos suscetíveis a certos problemas de saúde que podem tornar a covid-19 particularmente fatal, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A África – com cerca de 45 mil casos registrados, uma pequena fração de seus 1,3 bilhão de habitantes – é o continente mais jovem do mundo, onde mais de 60% da população tem menos de 25 anos. Na Tailândia e no Iraque, autoridades de saúde locais descobriram que as pessoas entre 20 e 29 anos apresentavam a maior taxa de infecção, mas com poucos sintomas.

Por outro lado, a idade média nacional da Itália, um dos países mais atingidos, é superior a 45 anos. A idade média das vítimas de covid-19 é de cerca de 80 anos. As pessoas mais jovens costumam ter um sistema imunológico mais forte, o que pode resultar em sintomas mais leves, disse Josip Car, especialista em população e saúde global da Universidade Tecnológica Nanyang, em Cingapura.

Existem exceções notáveis à teoria demográfica. Com a população de maior idade média do mundo, o Japão registrou menos de 520 mortes, embora seu número de casos tenha aumentado com a ampliação dos testes.

A região de Guayas, no Equador, epicentro de um surto que pode ter causado até 7 mil mortes, é uma das mais jovens do país, pois apenas 11% de seus moradores têm mais de 60 anos de idade. Jha, de Harvard, alerta que alguns jovens que não apresentam sintomas são altamente contagiosos por razões que ainda não foram bem compreendidas.

Distância cultural

Fatores culturais, como o distanciamento social incorporado a certas sociedades, podem conferir mais proteção a alguns países, disseram epidemiologistas.

Na Tailândia e na Índia, onde as estatísticas sobre o vírus são relativamente baixas, as pessoas se cumprimentam à distância, com as palmas das mãos unidas, como em uma prece. No Japão e na Coréia do Sul, as pessoas se curvam e, muito antes da chegada do coronavírus, já costumavam usar máscaras quando se sentiam mal.

Em grande parte do mundo em desenvolvimento, o costume de cuidar dos idosos em casa faz com que existam menos lares para a terceira idade, os quais têm sido suscetíveis a trágicos surtos no ocidente.

No entanto, existem notáveis exceções à teoria do distanciamento cultural. Em muitas partes do Oriente Médio, como o Iraque e os países do Golfo Pérsico, os homens geralmente se abraçam ou se cumprimentam apertando as mãos, mas a maioria não está se infectando.

Luz e calor

A geografia do surto – que se espalhou rapidamente durante o inverno em países da zona temperada, como Itália e Estados Unidos, e praticamente não apareceu em países mais quentes, como o Chade ou a Guiana – parecia sugerir que o vírus não se adaptava bem ao calor. Outros coronavírus, como os que causam o resfriado comum, são menos contagiosos em climas mais quentes e úmidos.

Mas os pesquisadores dizem que é ilusória a ideia de que o calor consegue repelir o vírus sozinho. Alguns dos piores surtos do mundo em desenvolvimento ocorreram em lugares como a região amazônica do Brasil.

“O melhor palpite é que as condições do verão podem ajudar, mas é improvável que acarretem uma desaceleração significativa do crescimento ou um declínio no número de casos”, disse Marc Lipsitch, diretor do Centro de Dinâmica de Doenças Transmissíveis da Universidade de Harvard.

O vírus que causa a covid-19 parece ser tão contagioso que mitiga qualquer efeito benéfico do calor e da umidade, disse Raul Rabadan, biólogo computacional da Universidade de Columbia. Mas outros aspectos de climas quentes, como o fato de as pessoas passarem mais tempo ao ar livre, podem ajudar.

“As pessoas que moram em ambientes fechados podem promover a recirculação do vírus, aumentando a chance de contrair a doença”, disse Car, da Universidade Tecnológica de Nanyang.

Os raios ultravioleta da luz solar inibem a propagação desse coronavírus, de acordo com um estudo realizado por pesquisadores de modelos ecológicos da Universidade de Connecticut. Portanto, as superfícies de locais ensolarados podem ter menos probabilidade de manter os vírus ativos, mas a transmissão geralmente ocorre por meio do contato com uma pessoa infectada, e não por meio do toque em uma superfície contaminada.

Quarentenas antecipadas e rigorosas

Países que se fecharam bem cedo, como o Vietnã e a Grécia, conseguiram controlar o contágio, uma evidência da eficácia do distanciamento social e da quarentena rigorosa na contenção do vírus. Na África, países que viveram experiências amargas com o HIV, a tuberculose resistente a medicamentos e o ebola já conheciam os procedimentos necessários e reagiram com rapidez.

Em Uganda e Serra Leoa, funcionários de aeroporto começaram a medir a temperatura dos passageiros (medida que desde então se revelou pouco eficiente), registrar detalhes de contatos e usar máscaras muito antes de seus colegas nos Estados Unidos e na Europa tomarem essas precauções.

Senegal e Ruanda fecharam as fronteiras e anunciaram toque de recolher quando ainda tinham poucos casos. Seus ministérios da Saúde começaram a rastrear os contatos dos infectados logo no início da contaminação.

Tudo isso aconteceu em uma região onde os ministérios da Saúde precisam contar com dinheiro, profissionais da saúde e suprimentos de doadores estrangeiros, muitos dos quais voltaram sua atenção para surtos em seus próprios países, disse Catherine Kyobutungi, diretora executiva do Centro de Pesquisa em População e Saúde da África.

“Um belo dia eles acordaram e disseram: ‘certo, o peso do país está nas nossas costas, então precisamos nos apressar’”, disse ela. “E eles se apressaram. Algumas das medidas de combate foram lindas de ver, sério mesmo”.

Serra Leoa redirecionou protocolos de rastreamento de doenças que foram estabelecidos após o surto de ebola em 2014, no qual quase 4 mil pessoas morreram no país. O governo montou centros de operações de emergência em todos os distritos e recrutou 14 mil agentes comunitários de saúde, 1.500 dos quais estão sendo treinados como rastreadores de contato, embora Serra Leoa tenha apenas cerca de 155 casos confirmados.

Mas ainda não se sabe quem pagará seus salários nem suas despesas, como motocicletas e capas de chuva para mantê-los em operação durante a estação chuvosa que se aproxima.

As autoridades de saúde de Uganda também estão testando cerca de mil motoristas de caminhão por dia. Mas muitos dos que têm resultados positivos vieram da Tanzânia e do Quênia, países que não estão monitorando o contágio com tanto rigor, o que gera a preocupação de que o vírus continue se infiltrando no país por suas fronteiras porosas.

As quarentenas, com proibições a cerimônias religiosas e eventos esportivos com espectadores, claramente funcionam muito bem, afirma a Organização Mundial da Saúde. Mais de um mês depois do fechamento das fronteiras nacionais, das escolas e da maioria das empresas, países como Tailândia e Jordânia testemunharam uma queda nas infecções.

No Oriente Médio, o fechamento generalizado de mesquitas, santuários e igrejas aconteceu relativamente cedo e provavelmente ajudou a impedir a propagação em muitos países.

Uma exceção notável foi o Irã, que não fechou alguns de seus maiores santuários até 18 de março, um mês inteiro depois de registrar seu primeiro caso, na cidade de Qum, destino de muitos peregrinos. A epidemia se espalhou rapidamente a partir daí, matando milhares de iranianos e espalhando o vírus pelas fronteiras conforme os peregrinos voltaram para casa.

Por mais eficazes que sejam as quarentenas, nos países onde não há uma rede de seguridade social robusta e naqueles onde a maioria das pessoas trabalha na economia informal, será difícil manter as ordens de fechamento do comércio e exigir que as pessoas fiquem em casa. Quando as pessoas se veem obrigadas a escolher entre o distanciamento social e a alimentação de suas famílias, elas escolhem esta última.

Estranhamente, alguns países onde as autoridades demoraram a reagir e onde as quarentenas foram irregulares parecem ter sido poupados. O Camboja e o Laos tiveram rápidos aumentos de infecção quando as poucas medidas de distanciamento social estavam em vigor, mas nenhum deles registrou novos casos nas últimas três semanas.

O Líbano, cujos cidadãos muçulmanos e cristãos costumam fazer peregrinações ao Irã e à Itália, respectivamente, ambos destinos tomados pelo vírus, deveria apresentar um alto índice de infecções. Mas não apresenta.

“Nós simplesmente não estamos observando o quadro que esperávamos”, disse o Dr. Roy Nasnas, consultor de doenças infecciosas do Hospital Universitário de Geitaoui, em Beirute. “E não sabemos o porquê”.

Jogando a sorte

Por fim, a maioria dos especialistas concorda que pode não haver uma única razão para alguns países serem atingidos e outros não. É provável que a resposta seja alguma combinação dos fatores acima – ou uma outra também mencionada pelos pesquisadores: pura sorte.

Países com a mesma cultura e o mesmo clima poderiam ter números muito diferentes se uma pessoa infectada comparecesse a um evento social lotado, transformando-o naquilo que os pesquisadores chamam de evento de super-disseminação.

Como uma pessoa infectada pode não apresentar sintomas ao longo de mais de uma semana – isso quando chega a apresentá-los – a doença se espalha sob o radar, exponencialmente e, ao que parece, de maneira aleatória. Se uma mulher em Daegu tivesse ficado em casa naquele domingo de fevereiro, o surto da Coreia do Sul poderia ter sido menos da metade do que de fato foi.

Alguns países que deveriam ter sido devastados ainda não foram, o que deixa os pesquisadores com uma pulga atrás da orelha. A Tailândia relatou o primeiro caso confirmado de coronavírus fora da China em meados de janeiro: um viajante de Wuhan, a cidade chinesa onde se acredita que a pandemia começou. Naquelas semanas críticas, a Tailândia continuou recebendo um grande influxo de visitantes chineses. Por alguma razão, esses turistas não dispararam uma transmissão exponencial no país.

Alguns países fizeram tudo errado e, mesmo assim, parecerem não ter sofrido com o vírus, como seria de se esperar. “Na Indonésia, quase não estamos fazendo testes e temos um ministro da Saúde que acredita que rezar cura a covid”, disse o Dr. Pandu Riono, especialista em doenças infecciosas da Universidade da Indonésia. “Por sorte, temos muitas ilhas no nosso país, o que limita a circulação e, quem sabe, as infecções”.

“Fora isso, estamos fazendo tudo errado”, acrescentou ele. / Tradução de Renato Prelorentzou. 

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