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O epicentro do tremor

A mesma febre catalã atinge outras regiões do Velho Continente

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2017 | 05h00

Vamos partir desse axioma: um político, quando está à frente do Estado, é necessariamente um homem inteligente. Sobretudo quando ocupa essa posição invejável dentro da Europa, continente que é “pai das artes, das letras, da guerra e das ciências políticas”. Se essas premissas estiverem corretas, então, Mariano Rajoy, primeiro-ministro da Espanha, deve ter um cérebro poderoso. Mas se comportou como um burro no confronto com a Catalunha e Barcelona.

Como explicar esse erro? Aqui podemos propor outro axioma: todo chefe de Estado se torna tolo, furioso e idiota quando a unidade de seu território se vê ameaçada por uma força independentista. Os exemplos são infinitos. Vamos nos contentar com a França. Depois da última guerra, o país tratou com desprezo, raiva ou silêncio as revoltas de Indochina e Argélia, suas antigas colônias. Resultado: duas guerras espantosas, que terminaram, na Indochina e também na Argélia, com uma vergonhosa derrota da França.

Rajoy acaba de cometer o mesmo erro dos franceses. Tratou a reivindicação catalã com silêncio e, de repente, lá estava ele com uma granada nas mãos. Sua resposta às demandas catalãs foi tão ruim que é surpreendente que a União Europeia não tenha tentado a mediação. Diz-se que a UE não tinha direito de intervir. Não é verdade. O artigo 2º do Tratado da União Europeia autoriza esse tipo de intervenção. Recentemente, a UE interveio junto aos governos da Hungria, da Polônia e até da França sobre a questão dos xiganos.

A chave da inércia da Europa é, provavelmente, Angela Merkel. Mariano Rajoy é membro do PPE (Partido Conservador Europeu). A chanceler alemã também. Rajoy é, portanto, um “protegido” da chanceler, assim como qualquer outro membro do PPE. O presidente da Comissão de Bruxelas, Jean Claude Juncker, é outro membro do partido. Ele sempre obedece Merkel, com a coleira apertada no pescoço. Foi assim que a UE deixou dois trens em rota de colisão, o trem de Madrid e o trem de Barcelona.

A estupidez de Rajoy trouxe esse resultado: mais uma rachadura se formando em um país europeu. Caiu muito mal. Toda a Europa está abalada: após anos de queixas, euroceticismo e avanço de populistas de extrema direita, acreditava-se que a Europa estava no caminho da cura. Os “populistas” (Le Pen etc.) foram maltratados nas eleições — sobretudo na França, onde um novo presidente brilhante e ousado, Emmnuel Macron, se apresentou como fervoroso defensor da União Europeia – o que não é comum entre os chefes de Estado europeus.

No momento em que o impetuoso Macron estava prestes a se encontrar com Merkel para estabelecer o “calendário da reconquista”, a primeira-ministra caiu. Ela continua com o poder em Berlim, mas está muito fraca para impor uma “marcha forçada” rumo à Europa lado a lado com o presidente francês. A cabeça pensante da Europa está com enxaqueca. 

E outros dramas estão surgindo aqui e ali. Os escoceses, que guardam um grande desejo de independência, também criticaram severamente a intransigência de Rajoy. 

A mesma febre afeta outras regiões do Velho Continente: os bascos espanhóis acompanharam apaixonadamente a luta dos “independentistas catalães”. A Córsega (França) enviou observadores para as ruas de Barcelona. O norte da Itália e a Flandres belga estão de olho em Barcelona. Da flexibilidade e da inteligência de Rajoy – ou de sua indolência e nulidade – dependerá o futuro sorridente ou tenebroso da Europa./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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