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O Equador e a selva

O Parque Yasuní, na Amazônia equatoriana, é o sonho de qualquer cientista. Tem pumas, onças e ariranhas gigantes. Cada hectare da sua floresta abriga uma variedade de árvores maior que a da América do Norte inteira. No entanto, há uma espécie que pode desequilibrar todas as demais: o "homo bolivariano". Há poucos dias, ela deu seu bote e o golpe foi sentido muito além do Equador.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2013 | 02h01

"O mundo nós falhou", disse o presidente equatoriano, Rafael Correa, em cadeia nacional. Com sua breve mensagem, ele anunciou o fim de um pacto internacional para a conservação de um trecho vulnerável da majestosa floresta tropical.

A culpa, segundo ele, era dos países ricos que lhe teriam negado recursos suficientes para garantir a integridade do coração do Yasuní. Tamanha mesquinharia, queixou-se Correa, forçou-lhe a mão, levando-o a sepultar o projeto natimorto e ainda pedir ao Congresso equatoriano para que autorizasse a prospecção de petróleo na floresta. "O mundo é uma grande hipocrisia, pois a lógica que prevalece não é a lógica da justiça, mas a do poder".

Reação. A declaração caiu com um tronco de mogno contrabandeado. Ambientalistas e líderes indígenas reagiram indignados e tomaram as ruas de Quito em protesto. "Não toque no Yasuní!", exigiam em seus cartazes.

Os países doadores levaram um susto, pois nada sabiam sobre o fim do contrato que tinha a chancela das Nações Unidas. A Alemanha, o maior doador, desmentiu o mandatário equatoriano e ainda atribui-lhe "responsabilidade exclusiva" pelo colapso do pacto.

E tudo havia começado tão bem. Há seis anos, Correa lançou a experiência inovadora. O Equador se tornaria o primeiro país a abrir mão de explorar uma reserva de petróleo em troca de um prêmio internacional. O dinheiro que deixasse de ganhar com o óleo, o país receberia como compensação ambiental, aplicando-a na proteção daquele trecho da Amazônia.

Assim, ganhariam todos. O Equador teria recursos para manter a majestosa floresta tropical e ainda combater a pobreza das comunidades locais. Ganharia o mundo ao deixar enterrados os 930 milhões de barris de petróleo do bloco Yasuní ITT.

A conta era salgada - US$3,6 bilhões -, mas correspondia à metade do valor de mercado da energia do Yasuní. Para o planeta, já em vias de aquecimento insustentável, a jogada tinha valor incalculável: 410 milhões de toneladas de carbono a menos jogados na atmosfera.

O mundo comoveu-se. Notáveis e celebridades, como ex-presidente americano Bill Clinton e o ex-primeiro ministro espanhol Felipe González, aderiram. Um grupo de cinco países europeus investiu US$ 13 milhões no pacto e comprometeu-se em dar outros US$ 300 milhões.

Para promover a proposta, o Equador até montou uma réplica da floresta Yasuní na sala de convenções da Conferência Rio + 20, repleta com flora tropical e cantos de pássaros da região.

Chantagem. O motivo do abandono do projeto permanece um mistério. Segundo Correa, o dinheiro arrecadado foi pífio. Prova cabal da avareza dos países ricos. Ambientalistas no Equador acusam o mandatário de empulhação.

Pedir pareceria para proteger a floresta foi uma boa ousadia. No entanto, acenar com a destruição da mesma floresta se os contribuintes não desembolsarem a quantia exigida soa a chantagem.

No ano passado, ao flagrar empreiteiras avançado para o Yasuní, o ex-ministro do Meio Ambiente Albert Costa previu o golpe. "A infraestrutura está no lugar. Ele está se preparando para culpar os países ricos de não doar dinheiro suficiente para o Yasuní."

Não deu outra, como noticiou a imprensa, inimiga predileta do mandatário andino. "Agora, os maiores ecologistas são os diários mercantilistas", postou Correa no Twitter. O presidente ainda ameaçou propor uma consulta popular para acabar com a mídia impressa, "para economizar papel e evitar o corte indiscriminado de árvores". Em um ecossistema acostumado com o canto do "homo bolivariano", nada surpreende.

*É COLUNISTA DO ESTADO,  CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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