O Equador e o asilo de Assange

No primeiro andar de um prédio baixinho de tijolos vermelhos, logo atrás da loja de departamentos Harrods, em Londres, o foragido mais célebre do mundo arranha o espanhol enquanto planeja sua grande fuga. Desde o dia 19, Julian Assange, fundador e editor do polêmico site WikiLeaks, que com uma clicada de mouse pode abalar governos dos mais poderosos, está hospedado na embaixada do Equador na Grã-Bretanha. Sua meta é tão esdrúxula quanto ousada, conseguir asilo político no país da América do Sul.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h04

Procurado pela Justiça da Suécia, onde é suspeito de ter cometido crimes sexuais contra duas mulheres, o hacker ativista australiano de 40 anos e cabelos prateados há dois anos brinca de gato e rato com a Polícia Internacional (Interpol) e seu apelo ao pequeno país andino pode ser sua manobra mais arriscada.

Na sexta-feira, ele faltou a uma audiência marcada com a polícia britânica, que pretende deportá-lo. Não é a Suécia que o assusta. Assange e sua galáxia de seguidores desconfiam que Estocolmo seja apenas o Cavalo de Troia para Washington, que o investiga por roubo e divulgação de documentos sensíveis e por crimes contra a segurança nacional - delitos que poderiam render a ele prisão perpétua ou até pena de morte.

Acossado nos dois lados do Atlântico, o hacker político correu para onde pôde, a missão diplomática de um diminuto país "amigo" da América equatorial. Se no velho cinemão cabia ao Brasil o papel de esconderijo de bandidos e desesperados, porque não escalar um país bolivariano como abrigo para o ideólogo fora da lei do momento?

Enquanto Equador avaliar o pedido de asilo, Assange será intocável - e o presidente Rafael Correa parece curtir o suspense e o tsunami de mídia que seu novo protegido atraiu. "Não temos nenhuma pressa em decidir o caso de Assange", disse, em transmissão nacional. Enquanto espera, simpatizantes que compõem um elenco estelar, entre eles os cineastas Oliver Stone e Michael Moore e o linguista Noam Chomsky, manifestam seu apoio ao "prisioneiro de consciência".

A escolha do destino faz certo sentido. Assange e Correa compartilham uma visão conspiratória do mundo e o asco ao governo ianque e seus aliados - "os países que têm as fuças na gamela com a América", como diz a mãe de Assange. "O Equador não tem a fuça na gamela." Em maio, Assange editou uma longa e suave entrevista com Correa no seu programa, The Julian Assange Show. Correa devolveu o salamaleque, chamando seu entrevistador de "emblema de liberdade de expressão ilimitada".

Bajular um renomado anti-imperialista como Assange pode ser oportuno no momento em que a doença do polêmico Hugo Chávez ameaça esvaziar a cadeira de provocador-chefe de Washington. Mas há riscos para o companheiro Correa. Uma coisa é lançar farpas inócuas nos gringos. Outra é tornar seu país um renegado internacional, dedicado a espalhar segredos de Estado das potências. Equador quer ser a nova sede global da ofensiva digital contra o império?

E como seria a convivência do demolidor de sigilos estratégicos com seu anfitrião bolivariano, um líder empenhado em intimidar adversários, silenciar a crítica e encampar a mídia que ainda não controla?

Que pensa o editor Assange da encruzilhada correísta contra Emilio Palacio, editorialista do jornal El Universo, condenado a 3 anos de prisão - cujo diário foi multado em US$40 milhões - por uma coluna que ofendeu o mandatário equatoriano? Palacio fez o que qualquer perseguido político no país faria e fugiu para os EUA, onde pediu asilo.

Graças ao repúdio internacional, Correa retirou o processo, que teria quebrado o Universo e acabado com a carreira do jornalista. Mas a mensagem colou. "O passado mostra que sr. Palacio não pode praticar livremente sua profissão", diz sua advogada, Sandra Grossman. "Há uma espada de Dâmocles permanentemente pendurada sobre sua cabeça." O processo contra Palacio e seu jornal ocupa centenas de páginas. Serviria de leitura interessante para o libertário do WikiLeaks enquanto ele come guatita e espera a decisão sobre seu destino nos Andes.

 

 

* MAC MARGOLIS - É CORRESPONDENTE DA NEWSWEEK, COLUNISTA DO ESTADO, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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