O equilíbrio difícil

Na cerimônia de posse do presidente do Peru, Ollanta Humala, na semana passada, havia algo para agradar todo mundo.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2011 | 00h00

Para os investidores nacionais e estrangeiros, assustados com seu passado incendiário, Humala ostentou um ministério conservador, recheado de empresários e medalhões do establishment peruano. Para os "ollantistas", os companheiros da esquerda, anunciou um "Peru para todos", com aumentos polpudos do salário mínimo (25% em dois anos), aposentadoria universal e um novo ministério, de Desenvolvimento e Inclusão Social.

Essa é a boa notícia do novo governo. Assim, o ex-militar, conhecido por sua retórica nacionalista e pelo golpe de Estado fracassado que promoveu em 2000, começa a reinventar-se estadista.

Também é a má notícia. A missão de Humala é digna de equilibrista, um papel improvável para o polemista de punho cerrado. Na campanha, contou com a ginga de marqueteiros políticos tarimbados, incluindo petistas importados do Brasil. Mas entre o palanque e o palácio, a distância é grande.

Se o novo líder conseguirá manter a direção nesse trecho promissor da acidentada cordilheira andina, os próximos passos dirão. Mas os primeiros já levantam tanto dúvidas quanto esperanças.

Considere a promessa de zelar pela Constituição do país - a de 1979. A referência é uma farpa à Carta atual, de 1993, redigida na ditadura de Alberto Fujimori e, portanto, "ilegítima", segundo Humala.

A afirmação pode ter certa dose de lógica. Embora aprovada em Assembleia Constituinte (votação boicotada pela oposição) e depois em referendo nacional, o texto de 1993 sofreu a mão pesada de Fujimori. Mas também sancionou liberdades econômicas - a privatização e a redução do papel perdulário do Estado na economia - que ajudaram a transformar o país disfuncional em modelo latino-americano.

Crescimento. O resultado foi a globalização do país, precondição para o boom mais espetacular do continente. O Peru cresce pelos últimos 12 anos consecutivos, com inflação baixa e quase US$ 50 bilhões em reservas internacionais.

A bonança não é apenas dos magnatas. A taxa de pobreza despencou na última década, de quase metade da população a 31% hoje. Até o mês passado, o governo contabilizava US$42 bilhões em investimentos na agulha, apenas na indústria de mineração.

Humala, com razão, fala em nome de um outro Peru, os quase 10 milhões de pobres que ainda esperam a sua onda de prosperidade. Mas ele também sabe contar. Eleito com uma magra maioria, com apenas 47 de 130 cadeiras no novo Congresso, e cercado de ceticismo, Humala não governa sem alianças ecumênicas.

Afastou-se do companheiro fiel e suposto padrinho Hugo Chávez, o apóstolo do fragilizado "socialismo do século 21". Bem ao estilo Humala "paz e amor", abraçou o inimigo - com destaque para o ex-presidente Alejandro Toledo, um moderado convicto. Seus 18 ministérios serão presididos por cinco empresários e sete ex-ministros, com conservadores no comando da gestão econômica. Mantém Júlio Velarde na presidência do Banco Central. Para a Fazenda, escolheu o economista Miguel Castilla, com diplomas de Harvard e Johns Hopkins. Para primeiro-ministro, indicou Salomon Lerner, um empresário rico.

Humala assume um país em franca expansão econômica, mas ansioso por mudanças e impiedoso com líderes que não conseguem entregá-las a contento.

Que o diga Alan García, seu antecessor, que presidiu o mais sustentado período de crescimento das últimas décadas, com queda expressiva da miséria, e saiu pela porta dos fundos.

García - atenção ollantistas! - nem compareceu à cerimônia de posse do atual presidente, realizada na quinta-feira na capital peruana.

É COLUNISTA DO "ESTADO", CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK" NO BRASIL E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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