O errado e o catastrófico no Afeganistão

Os novos líderes precisam se apressar para reverter as falhas do governo Karzai em várias áreas vitais para o país, como a política, econômica e militar

AHMED, RASHID, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2014 | 02h02

No domingo, depois de meses de disputas, os dois principais candidatos presidenciais do Afeganistão concordaram em formar um governo de unidade nacional. Ashraf Ghani, tecnocrata pashtun, será o presidente e Abdullah Abdullah, ex-ministro do Exterior de ascendência tajique e pashtun, o principal executivo, um novo cargo, semelhante ao de primeiro-ministro.

O acordo de divisão de poderes foi concluído depois de uma recontagem dos votos das eleições de abril, consideradas em grande parte fraudadas. Mas, como não tem uma base jurídica na lei eleitoral do Afeganistão, o acordo não deverá durar muito.

Concluído com a intermediação de Washington, é mais um compromisso provisório que revela as limitações dos 13 anos de presença dos Estados Unidos no país. Funcionários americanos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) querem que acreditemos que a democracia está ganhando força no Afeganistão, que a insurgência do Taleban parou e a Al-Qaeda está sendo derrotada. Evidentemente, todos esses argumentos são uma desculpa para as forças americanas começarem a se retirar no fim do ano, plano que foi considerado errado quando foi concebido, em dezembro de 2009, e agora está se revelando catastroficamente errado.

Como John F. Sopko, inspetor-geral para a reconstrução do Afeganistão, disse em um discurso no dia 12, em Georgetown, o Afeganistão "continua sendo atacado pelos insurgentes, não dispõe de recursos suficientes, é assolado pela corrupção, castigado por elementos criminosos envolvidos no tráfico de ópio e no contrabando, e o governo encontra todo tipo de dificuldade para exercer suas funções básicas".

Se não houver uma grande dose de honestidade e uma nova mentalidade, quase certamente o país voltará a mergulhar na guerra civil com o surgimento de grupos ainda mais radicais do que o Taleban - como aconteceu no Iraque e na Síria.

A transição para a plena soberania afegã tinha como base quatro transições. Nenhuma delas foi empreendida com sucesso, embora, entre 2002 e 2013, os Estados Unidos tenham gasto diretamente no país mais de US$ 640 bilhões.

A transição mais crucial foi a política. Em vez de reconstruir as instituições do Estado ou de realizar reformas eleitorais, o presidente Hamid Karzai promoveu o clientelismo político que não conseguiu limitar o poder dos senhores da guerra. Ele venceu o segundo turno da eleição fraudulenta de 2009. No ano seguinte, pediu à ONU que parasse de supervisionar as eleições em seu país. E Washington e a Otan concordaram.

A segunda transição prometida foi a militar. Um novo Exército afegão treinado pelos americanos deveria supostamente assumir a responsabilidade da segurança e ter condições de conter o Taleban por conta própria. No entanto, no dia 16, o ministro do Interior, Mohammad Omar Daudzai, falando ao Parlamento em Cabul, disse que os seis meses anteriores foram os mais sangrentos para a polícia afegã.

Combates. Hoje, são travados combates em 18 das 34 províncias, informaram funcionários da Otan e do Afeganistão. Em muitas áreas, soldados afegãos mal conseguem garantir a segurança de suas bases, e muito menos reconquistar territórios perdidos. A Província de Helmand está ameaçada pelo domínio dos taleban - e com ela o restante do sul do Afeganistão.

A terceira transição era a econômica. O jornal The Washington Post noticiou recentemente que o governo afegão está falido, precisa de uma ajuda de US$ 537 milhões e mal conseguiu pagar 500 mil funcionários públicos este mês. O dinheiro gasto com escolas e hospitais melhorou a educação e a saúde, mas estes serviços dependem de recursos externos. Há poucos investimentos em larga escala na agricultura ou na indústria básica - em vez disso, a maior parte da economia se concentra na manutenção de tropas estrangeiras.

Quando visitei o Afeganistão pela primeira vez, nos anos 70, o país era tremendamente pobre, mas era quase autossuficiente em alimentos e tinha um pequeno, mas florescente comércio de exportação de frutas, artesanato, peles e pedras preciosas. Hoje, o Afeganistão importa grande parte de seus alimentos e produz poucos bens comerciais. A economia de serviços, exercidos pela classe média, entrou em colapso quando as pessoas mais preparadas fugiram com seu capital. O vazio resultante abre o caminho para que a economia clandestina alimentada pelo ópio possa se expandir enormemente.

A quarta transição deveria referir-se ao fim da interferência externa, que muitos afegãos temem tanto quanto o Taleban. Irã, Paquistão, Rússia, Índia e Arábia Saudita ajudaram a alimentar a guerra civil nos anos 90. O governo Barack Obama prometeu em seu primeiro mandato que negociaria um acordo de não interferência entre os vizinhos do Afeganistão. Mas isso também não aconteceu.

A história não olhará com benevolência para o legado do governo americano e de Karzai. Os novos líderes do Afeganistão precisam trabalhar muito mais. O acordo conjunto entre Ghani e Abdullah prevê a convocação de uma loya jirga - uma ampla assembleia dos representantes tribais e locais recentemente eleitos nos dois próximos anos para fazer emendas à Constituição, refletindo a criação do novo cargo executivo.

Mas a loya jirga teria de ser convocada o mais rapidamente possível - antes das eleições parlamentares do próximo ano - para dar cobertura constitucional ao acordo de divisão de poderes. A assembleia também deveria discutir a revisão do atual sistema presidencial extremamente centralizado e a reforma do sistema eleitoral para evitar futuras fraudes. Mas para que o Afeganistão chegue inteiro a 2015, seus novos líderes terão de agir depressa para corrigir seu curso / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É JORNALISTA PAQUISTANÊS E

ESCRITOR

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