Mikhail Klimentyev, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP
Mikhail Klimentyev, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP

O erro de cálculo do presidente Putin na Ucrânia terá um alto preço; leia a análise

Líder russo conseguiu ressuscitar a Otan, tornar a União Europeia cada vez mais unida e errou ao achar que conseguiria ter o domínio de Kiev rapidamente

Thiago de Aragão*, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2022 | 15h00

O presidente russo, Vladimir Putin, conseguiu o que muitos não conseguiram ao longo dos últimos anos. Em questão de poucas semanas, revitalizou a Otan, fez a União Europeia renascer de um limbo diplomático desde o Brexit,  o valor e o peso das sanções aumentar consideravelmente e viu seu porto seguro -- a China -- se abster no Conselho de Segurança das Nações Unidas, ao invés de apoiar a insana aventura na Ucrânia

Putin, o metódico ex-KGB, há algumas semanas vivia uma situação de total controle sobre o futuro da Rússia, Ucrânia e grande parte da Europa. Hoje, ele assiste drones da Força Aérea Ucraniana, de fabricação turca, abaterem colunas inteiras de seus blindados, tanques e caminhões. O presidente russo calculou errado a velocidade com a qual suas tropas tomariam Kiev e forçariam o governo ucraniano a capitular. Ele também calculou errado a unidade da Otan, o volume de apoio internacional aos ucranianos e o papel de liderança carismática de Volodmir Zelenski

Antes tido como frio, Putin  deixou-se levar pelas emoções. A arrogância o fez colocar mais de 150 mil soldados na fronteira ucraniana e a apresentar demandas que sabia de antemão eram inaceitáveis. Durante as negociações,  teve inúmeras oportunidades de  sair por cima. Dificilmente veria um documento com a garantia de que a Ucrânia jamais entraria na Otan, porém viu ofertas de Joe Biden, Emmanuel Macron e Olaf Scholl para adiar por prazo indeterminado qualquer tentativa de adesão da Ucrânia à aliança militar. 

Com o início da invasão, Putin tinha a certeza de que todo o confronto terminaria em tempo recorde. Sabia que as sanções seriam firmes, mas não acreditava na unidade de diversos países garantindo uma atuação rápida e coordenada. Segundo um diplomata russo, Moscou entendia que a coordenação entre aliados para fechar os modelos de sanções seria mais lenta do que a conquista de Kiev.

Impacto econômico 

Em cima disso, havia uma desconfiança enorme de que a exclusão do sistema Swift de fato ocorreria, já que a Europa seria  prejudicada nessa equação. A decisão dos EUA de proibir qualquer  transação de americanos com o sistema financeiro russo prejudica diretamente o poder de compra de cidadãos russos, pois empurra a inflação para cima. Buscando se proteger, o governo russo dobra as taxas de juros, mas sabe que, na prática, a saída de curto prazo -- e extremamente negativa -- é proibir russos de sacarem suas economias e enviar dinheiro para o exterior. Como medida de contenção, o BC russo liberou US$ 9 bilhões de reservas em bancos locais para dar liquidez à moeda. 

Sabe-se, no entanto, que esse fôlego não resiste a mais três semanas de guerra. Sabe-se também, que, mesmo com as retiradas das tropas, as sanções aplicadas permanecerão até que os EUA, União Europeia e outros países que embarcaram no pacote de isolamento financeiro russo sintam credibilidade suficiente no comportamento russo para levantar as sanções. Com Putin, a chance de isso acontecer é remotíssima. 

Um dos pontos mais impactantes foram as sanções em cima do Banco Central russo. Mesmo com reservas acima de US$ 600 bilhões, a liquidez  torna-se inacessível, pois grande parte dessas reservas são em títulos do Tesouro de vários países. Há alguma reserva em ouro, mas fora da Rússia. Assim como ocorreu com a Venezuela, que possui um volume relevante de ouro nos bancos britânicos, a Rússia passa a não ter acesso ao mínimo de suas preciosas reservas. 

Politicamente, isso gera pressão. E uma pressão enorme sobre Putin no campo doméstico. Empresários e membros do seu próprio gabinete já se dão conta do brutal erro de cálculo e de como as sanções estão afetando individualmente cada um deles. As sanções contra Vladimir Putin, pessoa física, seriam mais um forma  simbólica de constrangimento do que qualquer outra coisa. De qualquer forma não deixou de despertar ainda mais a ira no presidente russo. 

Para Entender

Entenda a crise entre Rússia e Otan na Ucrânia

O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

O rublo perdeu nas últimas 24 horas quase 30% do seu valor. Uma eventual recuperação passaria por uma retirada imediata de tropas do território ucraniano, um mea culpa difícil de ocorrer e um reconhecimento de erro por parte do Putin que certamente não iremos ver. O que está acontecendo com a economia russa não terá recuperação enquanto Vladimir Putin for o presidente. Isso aumenta a estabilidade da sua posição enquanto líder do país, gera uma avalanche de incertezas e faz com que a guerra na Ucrânia  se torne cada vez mais uma guerra pessoal de revanche. 

A China, que era o triunfo na manga da Rússia, não é a solução de todos os problemas. Comercialmente pragmática, Pequim aprendeu com a Venezuela que linhas de crédito sem garantias não devem mais ser o modus operandi. Mesmo com a ferrenha aliança contra o “Ocidente”, a China não irá resgatar a Rússia de uma grave crise econômica sem um volume crescente e continuo de gás, petróleo, alumínio, fertilizantes e lítio. Enquanto Xi Jinping sofre pressões domésticas para acalmar os ânimos nas tensões com os EUA, a certeza de que a China ajudaria a Rússia de uma forma impactante, não existe.

*Diretor de Estrategia da Arko Advice e Pesquisador Senior do CSIS (Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos de Washington)

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