O erudito antissemita

O grande escritor alemão Günter Grass, Prêmio Nobel de Literatura em 1989, é um especialista em provocações. O autor de O Tambor não tem medida. Seus romances são um amálgama de grosserias, poesia, imprecações, ódio, ternura, personagens grotescos, obscenos ou provocadores. Ele reúne como troféus uma infinidade de escândalos. Hoje, aos 85 anos, Grass mostra que não perdeu nada da sua violência, sua mordacidade, seu orgulho.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2012 | 03h04

Na quarta-feira, ele publicou no jornal Süddeutsche Zeitung um poema de 69 versos intitulado "O que deve ser dito", no qual dirige seus ataques contra um único alvo: Israel, ao qual acusa de ameaçar a paz mundial.

Grass argumenta que Israel dispõe há anos de um arsenal nuclear que cresce a cada dia, embora secreto e sem controle, pois nenhuma inspeção é autorizada. Ora, Israel pode lançar "ataques nucleares preventivos" contra instalações atômicas do Irã. A consequência desses ataques será "a erradicação do povo iraniano e isso com base na suspeita de que os dirigentes iranianos estão fabricando uma bomba atômica".

De passagem, Günter Grass insurge-se também contra o governo alemão, que comete o grande erro, segundo ele, de apoiar Israel. Pior ainda. Para ele, a "Alemanha arma Israel". Por exemplo, Berlim acaba de vender para os israelenses seu sexto submarino de transporte de ogivas nucleares.

Para não ser acusado de mais uma vez agredir Israel, Grass propõe a criação de uma instância internacional encarregada de controlar as armas nucleares iranianas e israelenses. A Alemanha, em geral, é muito crítica e, por vezes, manifesta aversão pelo escritor. Mais uma vez, ele expressa seu antissemitismo radical.

Segundo o jornal Die Welt, "Grass sempre teve um problema com os judeus, mas jamais o expressou tão claramente como nesse poema". O jornal tenta analisar o ódio que ele tem dos judeus. "Grass é o arquétipo do erudito antissemita alemão. Como é perseguido pela vergonha e o remorso, só conseguirá encontrar a paz de sua alma com o desaparecimento do Estado de Israel", diz o jornal.

É necessário, sem dúvida, remontar à história do escritor para entender o repentino "espasmo" de fiel antissemita. Há alguns anos, em 2006, Günter Grass, um homem de esquerda, declarou que, em outubro de 1944, ainda jovem, ingressou na 10.ª Panzerdivision SS Frundsberg da Waffen-SS.

Quando fez a confissão, há seis anos, os alemães ficaram indignados. Alguns chegaram a propor que o Nobel lhe fosse retirado.

Grass ingressou no PSD (Partido Social-Democrata), mas considerou os socialistas alemães muito mornos e, com frequência, denunciou suas tendências "pequeno-burguesas". Não aprecia os EUA, talvez porque ali vivam muitos judeus poderosos, especialmente em Nova York.

Em 11 de setembro de 2001, deixou claro até que ponto vai sua insensibilidade ao afirmar que "os americanos fazem muita história por causa de 3 mil brancos mortos pelos soldados da Al-Qaeda".

Em toda a Alemanha, a indignação contra o escritor é enorme. A chanceler Angela Merkel, que está de férias, não fez nenhum comentário sobre a nova retórica do escritor. Mas todos sabem que Merkel jamais demonstrou muito afeto por ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO  

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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