O escândalo sexual preferido de Sarkozy

Strauss-Kahn, provavelmente, deixa a corrida presidencial e as acusações contra ele [br]devem ajudar a campanha do presidente francês

Eric Pape, da Foreign Policy, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

Com Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do FMI, enfrentando acusações de crimes sexuais nos EUA, inúmeras questões estão surgindo sobre o notório mulherengo. Culpado ou vítima de uma armadilha - como alguns na França acreditam -, uma coisa é certa: o panorama da campanha presidencial francesa sofreu um abalo sísmico. Era amplamente aguardado que no próximo mês Strauss-Kahn anunciasse sua candidatura à nomeação do Partido Socialista para 2012. Para boa parte do eleitorado, ele era o homem do momento. Durante seu mandato à frente do FMI, foi elogiado por sua experiência, competência e habilidade política na estabilização da economia europeia.

No front político, Strauss-Kahn dava aos socialistas um enganoso apelo aos cruciais eleitores de centro e de direita atraídos para um candidato com boa-fé econômica e com compaixão pelas pessoas em dificuldades. Muitos desses eleitores estão desiludidos com o presidente Nicolas Sarkozy. Grande parte está assustada com o estado da economia. A despeito das promessas de campanha de Sarkozy, em 2007, a percepção é que ele fracassou.

Embora a crise econômica tenha atingido a França de maneira mais suave do que seus vizinhos, as pessoas desejam a recuperação de seu poder de compra. Por isso, as preocupações fiscais poderiam inclinar a eleição para o PS pela primeira vez desde que François Mitterrand se reelegeu em 1988.

Apesar de a campanha primária ainda não ter começado, há muito as sondagens indicavam que Strauss-Kahn derrotaria qualquer concorrente dentro do PS. Contra Sarkozy, a vitória seria de mais de 20 pontos porcentuais. Mas a questão é se Strauss-Kahn conseguiria enfrentar o escrutínio que uma intensa campanha política sobre sua vida privada. Parece que temos nossa resposta. O caso embaralhou as cartas eleitorais francesas.

Os índices de aprovação de Sarkozy pairam pouco acima da sarjeta. Ele repetidamente demitiu ministros para sinalizar mudança. No front externo, foi apanhado de surpresa pela primavera árabe, fazendo os políticos franceses parecerem reativos e desinformados. Suas recentes medidas de política externa, como liderar o ataque contra o ditador líbio Muamar Kadafi e a deposição de Laurent Gbagbo na Costa do Marfim, renderam muito pouco. Mas suas chances de reeleição melhoraram no último fim de semana.

Numa disputa contra Strauss-Kahn, Sarkozy teria de guinar para a direita para mobilizar sua base. Ele vinha demarcando esse terreno no debate sobre imigração, mas enfraqueceu sua rede no ano passado, quando elevou a idade de aposentadoria de 60 para 62 anos. A campanha para aprovar uma reforma trabalhista veio em meio a uma onda de revelações envolvendo conflitos de interesse de membros do governo.

Em tempos melhores, os franceses poderiam ter aceitado os dois anos adicionais, especialmente se recebessem algo em troca. Mas a elevação da idade de aposentadoria veio num período de grande conturbação e a reforma consolidou uma queda na aprovação de Sarkozy. Ele não se recuperou depois disso.

Personalidade. Em outro nível, parte do problema de Sarkozy é uma questão de personalidade. Os franceses estão habituados com presidentes imparciais, judiciosos e reservados. Sarkozy é participativo, frenético e até neurótico. Mas as queixas parecem pequenas se comparadas com o fato de os socialistas quase terem nomeado um molestador sexual em série.

Então, quem será o rival de Sarkozy? O presidente agora pode esperar um candidato socialista mais tradicional e, talvez, uma oposição menos unificada. É difícil imaginar que os socialistas transfiram o consenso em torno de Strauss-Kahn para outro candidato.

O suicídio político do ex-chefe do FMI dá chance a François Hollande, ex-líder do PS, um esquerdista responsável, que não é idealista nem populista. Infelizmente, ele não passa uma boa impressão na TV. Nos últimos meses, porém, ele aumentou sua popularidade e pesquisas sugerem que os eleitores começam a ver nele uma alternativa a Strauss-Kahn, apesar da falta de experiência econômica.

Mas há outros candidatos. Muitos, como o ex-premiê Laurent Fabius e a atual líder do PS, Martine Aubry, estão reavaliando as próprias chances. A candidata mais natural, ao menos de acordo com as tradições políticas francesas, é Martine. Ela é conhecida por aprovar a jornada semanal francesa de 35 horas, tão querida pela esquerda, mas manifestou ambiguidade em relação a uma candidatura. Fabius não lida tão bem com as pessoas, mas também está no páreo.

E há Ségolène Royal, que já se lançou candidata. Apesar da derrota para Sarkozy, em 2007, ela recebeu mais votos do que todos os outros candidatos na história do partido. Até agora, porém, ela não inspirou o eleitorado. Entre outros aspirantes, temos os populares prefeitos de Paris e de Lyon, além de vários membros de uma jovem geração. Ninguém, contudo, foi capaz de transmitir uma visão, um plano ou uma estrutura conceitual com o mesmo sucesso de Hollande. Para ser justo, nem Strauss-Kahn conseguiu isto.

As acusações contra o ex-chefe do FMI devem fortalecer a candidata da extrema direita, Marine Le Pen, que tem obtido resultados excelentes nas pesquisas desde que assumiu a Frente Nacional, no começo do ano. O apoio a Marine está ligado a suas críticas contra a elite política francesa, muitas vezes alienada.

Strauss-Kahn a presenteou com farta munição. Mesmo antes de sua prisão, pesquisas mostravam que ela chegaria em segundo, excluindo Sarkozy do segundo turno. Embora seja improvável que os socialistas votem na extrema direita, a sensação de que os políticos do país não são apenas corruptos, mas podem ser criminosos, só reforça os argumentos dela.

Se Marine for para o segundo turno, repetirá o feito de seu pai, Jean-Marie, em 2002. Sua Frente Nacional ainda não está em posição de vencer uma disputa e entregaria a presidência a quem quer que esteja concorrendo com ela. A pergunta é: o concorrente seria Sarkozy ou um socialista?

Recuperação. Além disso, apesar de muito improvável, a recuperação de Strauss-Kahn não é impossível. Seus advogados declaram que ele tem um "álibi inquestionável" - ele estaria almoçando com a filha num restaurante no momento do suposto ataque. Se for considerado inocente, ele poderá participar da escolha do PS, em junho, e tentar limpar o próprio nome antes de o partido definir o candidato, em outubro. Apesar de parecer impossível, a política francesa já mostrou o quão rápido as coisas podem mudar.

O governo mostrou discrição em relação às acusações contra Strauss-Kahn. Mas, apesar da cautela, é muito provável que todos saibam que ele é o melhor trampolim para Sarkozy. Diante dos crimes do socialista, não é difícil argumentar que o presidente não é, afinal, uma alternativa tão ruim. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK E AUGUSTO CALIL

É CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK" EM PARIS

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