O esforço para 'consolidar a revolução'

Resultado das eleições de domingo é usado por chavistas para tentar demonstrar que movimento está institucionalizado

O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2012 | 02h10

Análise

Os venezuelanos foram às urnas para eleger os governadores de 23 Estados, e entregaram a vitória em 20 deles ao partido socialista de Hugo Chávez. Em termos eleitorais, foi uma vitória avassaladora, consolidando ainda mais a revolução de Chávez que os venezuelanos haviam acabado de ratificar em outubro com a reeleição do presidente.

Embora ausente, a enfermidade de Chávez e sua viagem a Cuba para o tratamento do câncer parecem ter trazido votos de solidariedade. Elas também pareceram motivar os principais partidários de Chávez a trabalhar para consolidar a revolução para o dia inevitável no qual o líder não for mais capaz de presidir o país, como meio de demonstrar que a revolução foi agora institucionalizada e já não depende da sobrevivência de seu fundador. O comparecimento eleitoral foi baixo, em torno de 54%, em razão das recentes eleições presidenciais, do início da temporada natalina, e do fastio geral com a política. Comparecimento baixo favorece a base em qualquer eleição, e assim pareceu também no domingo na Venezuela, em particular dado o uso escancarado e indevido de recursos do Estado e da mídia pelo governo de Chávez em apoio a candidatos amigos. Alegações de irregularidades foram feitas, e deveriam ser pronta e completamente investigadas.

A oposição enfrenta agora questões espinhosas. Henrique Capriles, o líder da oposição que perdeu a eleição para Chávez em outubro, foi reeleito governador de Miranda, derrotando o ex-vice-presidente Elias Jaua numa disputa apertada.

Capriles conserva o manto de líder da oposição e será a escolha óbvia para concorrer à presidência no curto prazo se Chávez ficar incapacitado e novas eleições presidenciais forem convocadas, como dispõe a Constituição. Outros candidatos de oposição não se saíram tão bem, contudo, perdendo Estados significativos, entre eles o mais populoso, Zulia, um importante centro da indústria petrolífera, sangue vital da economia venezuelana. Além disso, a perda de Táchira foi um grande golpe.

Muitos candidatos de oposição ofereceram pouco em suas campanhas além da oposição a Chávez e a suas políticas. Eles não ganharam novos assentos e perderam quatro, e, em política, "não se pode ser alguma coisa com nada". Em outras palavras, na falta de uma agenda de governo concreta que propusesse uma alternativa viável e empolgante à governança chavista, o apoio a candidatos da oposição foi insuficiente para superar tanto o viés inerente no sistema político para candidatos chavistas bem como as circunstâncias únicas destas eleições.

A oposição, embora cada vez mais bem organizada do que em eleições anteriores, continua atrás em termos de desenvolvimento de uma mensagem e na batalha das ideias. Esta questão não é simplesmente nacional; a menos que dispute os corações e mentes dos eleitores venezuelanos também nos níveis estadual e local, a oposição continuará enfrentando dificuldades em qualquer campanha futura.

Da perspectiva dos Estados Unidos, a eleição também coloca problemas importantes. Por exemplo, o recém-destituído ministro da Defesa, Henry Rangel Silva, acusado pelos EUA de manter vínculos com traficantes de drogas e com as Farc da Colômbia, é agora o governador eleito de Trujillo.

Ramón Emilio Rodríguez Chacín, também acusado de ter vínculos com traficantes de drogas, é agora o governador eleito de Guarico. Ao mesmo tempo, a economia da Venezuela está claramente mal das pernas em razão da má administração do governo Chávez, mas há poucas evidências sugerindo que alguém na liderança política deseje mudar o curso da economia. Isso terá implicações negativas não só para os Estados Unidos, mas ainda mais para o Brasil, que mantém um amplo e profundo relacionamento comercial com Caracas.

A atenção agora se volta para nova posse do presidente Chávez no começo de janeiro. Alguns noticiários já sugerem que ele poderá não estar bem de saúde o suficiente para comparecer à cerimônia, alimentando especulações sobre uma provável transição de liderança no curto prazo.

Se assim for, os dois candidatos mais prováveis serão o vice-presidente Nicolás Maduro e o governador Capriles, mas a dinâmica presente na eleição presidencial de outubro e nas eleições para governador em dezembro persistirá, amplificada por um potencial novo extravasamento de solidariedade por Chávez. Nestas circunstâncias, a oposição terá uma dificuldade ainda maior de conquistar o poder; a grande luta poderá perfeitamente ocorrer dentro do movimento chavista, onde várias autoridades estão manobrando por cargos numa Venezuela pós-Chávez.

Os Estados Unidos e o Brasil, trabalhando juntos, deveriam ficar vigilantes em apoio à democracia, particularmente se esforços forem feitos para mudar a Constituição para permitir que o vice-presidente em exercício conquiste a presidência sem passar por nova eleição.

Uma transformação está seguramente ocorrendo na Venezuela. Esta é uma área em particular onde Estados Unidos e Brasil têm a oportunidade de trabalhar juntos numa agenda comum. Os problemas são importantes demais para se ignorar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.