O esqueleto da Guerra da Argélia pula do armário

Memória contra memória, palavra contra palavra. Nunca a busca da verdade dos acontecimentos até agora pouco transparentes da Guerra da Argélia foi tão grande nos dois lados do Mediterrâneo.Depois das declarações do general Paul Aussaresses, fazendo apologia das torturas praticadas pelos oficiais franceses durante a guerra da independência e admitindo sua participação pessoal no processo de repressão, foram colhidos novos depoimentos, de três antigos militantes da Frente de Libertação Nacional, FLN.Eles acusam o general Maurice Schmitt, até então respeitado chefe militar do país, antigo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da França, de ter comandado um dos principais centros de tortura da Argélia, o da Escola de Sarouy.As Guerras da Argélia e da Indochina e os métodos de violência utilizados pelas forças armadas francesas constituíram uma verdadeira escola de repressão no mundo, um exemplo seguido pelos militares golpistas da África e América Latina.Não foi por acaso que esse mesmo general Aussaresses, especialista em "ações especiais" do serviço secreto, que hoje faz a apologia da tortura no seu livro "Serviços Especiais", serviu posteriormente em Brasília, como adido militar da Embaixada da França, no momento em que os militares brasileiros utilizavam os mesmos métodos repressivos adotados contra os argelinos.Ali Moulay, antigo responsável por um grupo especializado em atentados à bomba, afirma que, tendo negado-se a entregar os nomes de seus cúmplices, acabou sendo vítima de torturas, choques elétricos nos órgãos genitais, por ordem do então tenente Schmitt, que o interrogou."Mentira, intriga", responde enfaticamente o general reformado que admite o interrogatório, mas não a sessão de tortura, lembrando que, se necessário, teria chegado a esse extremo, mas o preso se dispôs a falar e denunciar seus cúmplices sem que esse recurso tenha sido utilizado.Segundo o general, ouvido em Paris, Ali Moulai estava apavorado com a perspectiva de ser condenado à guilhotina e decidiu falar. Agora, está apenas procurando forjar um passado heróico.Mas outros depoimentos comprometem também o general francês. Malika Koriche, atualmente com 72 anos de idade, que hoje assume ter sido transportadora de bombas do FLN e autora de diversos atentados, conta como foi torturada, vítima da "gegéne" (máquina de choques elétricos).Ela foi presa por dois tenentes pára-quedistas, sendo um deles Maurice Schmitt. Também Rachid Ferrahi, na época adolescente, menor de idade, aderiu à FLN porque desde criança, na escola primária, já não suportava a humilhação colonial.Até hoje, ele guarda a lembrança de seu pai inteiramente nu, recebendo descargas elétricas, para obrigá-lo a falar.O general Schmitt está furioso com essas inesperadas denúncias e pergunta: "Afinal, quando se fará um processo por apologia de crimes de guerra contra os que apresentam esses terroristas como combatentes ou mártires, quando, na verdade, eles não passam de assassinos??As feridas dessa guerra continuam abertas, e o processo de cicatrizarão será longo, refletindo-se nas difíceis relações atuais entre a França e a Argélia.

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