O estadista e seus acordos secretos

Maiores vitórias de Obama no campo da política externa nasceram de negociações conduzidas fora dos olhares do público em geral

MARK, LANDLER, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2014 | 02h03

Um assessor deixa uma viagem com Hillary Clinton a Paris e voo para o Golfo Pérsico. Outros dois escapavam da Casa Branca periodicamente para pegar voos comerciais para Ottawa ou Toronto. Um alto conselheiro abandonou o Ala Oeste da Casa Branca às vésperas das eleições legislativas para embarcar para Pequim.

Três das mais importantes realizações diplomáticas do presidente Barack Obama - a retomada das relações com Cuba, anunciada esta semana; o acordo nuclear provisório com o Irã, em 2013; e o pacto sobre a mudança climática com a China - resultaram de negociações secretas. Algumas delas foram conduzidas em locais exóticos, como o Vaticano e o sultanato árabe de Omã. Outras, em lugares mais "comuns", como Boston, em Massachusetts.

Desde a viagem secreta de Henry Kissinger para a China, em 1971, nenhum presidente adotou a diplomacia secreta com o entusiasmo de Obama. Para um governo que gosta de promover sua transparência, essa Casa Branca concluiu que alguns pactos são mais bem sucedidos com toda a abertura de um ataque de drone contra terroristas.

O que as conversações com Cuba, Irã e China têm em comum - além de seu fascínio típico dos enredos de capa e espada - é uma pequena equipe de negociadores, uma disciplina rígida e um rigoroso controle da Casa Branca. Elas também atestam a vontade de Obama de confiar projetos históricos a assessores próximos - alguns deles, jovens e com pouca experiência no campo da diplomacia.

No caso de Cuba, toda a delegação americana é constituída de dois funcionários da Casa Branca - um dos quais, Benjamin J. Rhodes, um escritor de discursos de 37 anos que trabalha para Obama desde sua campanha de 2008 e se tornou uma voz influente no governo. As negociações com o Irã e a China também foram dirigidas por assessores do presidente americano.

Usar pessoas que não pertencem à área diplomática permite preservar o véu do sigilo, disse um funcionário sênior, porque essas pessoas, provavelmente, despertarão menos suspeitas entre os colegas ou a imprensa. Os três países com os quais eles negociaram, conseguiram manter o segredo.

"Negociações são como cogumelos: elas crescem no escuro", disse Martin S. Indyk, diretor de política externa do Brookings Institution. "Isso é especialmente verdade nas negociações entre adversários de longa data, onde as políticas domésticas de ambos os lados tornam praticamente impossível de se alcançar um acordo se as conversações foram conduzidas em público."

Indyk conhece os riscos de se conduzir diplomacia sob os olhos do público. Como o enviado especial da administração americana para as negociações entre israelenses e palestinos, ele batalhou para conseguir colocar dois lados desconfiados sob os claros holofotes da mídia. Enquanto os detalhes das conversações eram mantidos em segredo, a natureza muito pública do processo tornaram esses pontos vulneráveis ao escrutínio dos dois lados.

A última vez que Washington teve um debate vigoroso sobre a necessidade de se manter segredos na diplomacia foi em 2010, quando o site WikiLeaks vazou 250 mil telegramas confidenciais do Departamento de Estado, forçando Obama a aparar arestas com líderes estrangeiros e outros que tinham sido alvos da comunicação enviada para Washington. Os estragos causados pelo WikiLeaks provaram ser menos severos ou danosos do que muitos no governo democrata temiam. Mas não fizeram nada para dissuadir a administração Obama da ideia de que iniciativas incipientes precisavam ser protegidas do público e da imprensa.

Na preparação da abertura à Cuba, o governo aproveitou do sucesso de suas conversações secretas com o Irã. Os Estados Unidos participaram de conversações multipartidárias com o Irã sobre seu programa nuclear. Mas como estas foram congeladas no fim de 2011, Hillary Clinton, então secretária de Estado, autorizou um dos seus assessores, Jake Sullivan, a estabelecer contatos diretos com as autoridades iranianas.

Em julho de 2012, Sullivan se reuniu com representantes do Irã em Omã, onde Sultan Qaboos bin Said desempenhou o papel de intermediário entre os dois antigos inimigos. Sullivan, 38 anos, e um colega despencaram sobre um sofá numa casa que pertencia à embaixada americana.

A iniciativa decorreu de maneira intermitente, mas de repente tornou-se séria com a eleição de Hassan Rohani à presidência do Irã, em junho de 2013.

Sullivan, a partir de então acompanhado de um colega mais experiente, o subsecretário de Estado, William J. Burns, deu continuidade aos encontros secretos com representantes iranianos em Omã, nas Nações Unidas (Nova York) e em Genebra (Suíça). Quando outras potências ocidentais desembarcaram em Genebra para negociações definitivas com o Irã, em novembro de 2013, se deram conta de que a maior parte do acordo já estava desenhada.

Rhodes, por sua vez, já trabalhava muito próximo de Sullivan quando ele estava no Departamento de Estado e o recrutou para a Casa Branca após Hillary Clinton deixar o cargo de secretária. Os dois formaram um time para impulsionar outra abertura diplomática - agora, com os militares no poder em Mianmar - e eles compartilhavam a convicção de que uma reaproximação com Cuba estava um pouco atrasada.

Dessa vez, Rhodes se apresentou como voluntário para dirigir a iniciativa. Ele recebeu a ajuda de Ricardo Zuniga, um especialista sobre a questão cubana, de 44 anos, que trabalhara na Seção de Interesses dos Estados Unidos em Havana (Sina) e foi escolhido para o posto do Hemisfério Ocidental no Conselho de Segurança Nacional, uma vez que a Casa branca planejava a abertura a Cuba no segundo mandato de Obama.

O acordo climático do governo com a China sobre as emissões de gases do efeito estufa foi menos dramático. Ele foi esboçado com toda a discrição ao longo de meses pelo negociador do clima do Departamento de Estado, Todd D. Stern, e pelo assessor da Casa Branca sobre questões climáticas, John Podestá, que foi para Pequim uma semana antes de Obama a fim de tentar amarrar os detalhes.

Mas, este também, teve seus momentos para a posteridade. Em outubro, o secretário de Estado americano, John Kerry, recepcionou em Boston o funcionário chinês do mais alto escalão da área de política externa, Yang Jiechi. No almoço, no restaurante Legal Sea Foods, Kerry apontou para o Porto de Boston e disse que tinha sido despoluído pelas regulamentações ambientais.

A visita evidentemente impressionou Yang. Um mês mais tarde, Obama e o presidente chinês, Xi Jinping, se reuniram na Grande Muralha do Povo para anunciar o acordo histórico. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Análise

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