Renato Machado/Estadao
Renato Machado/Estadao

O Estado Islâmico como vizinho de frente

Família colombiana morava no mesmo andar do apartamento alugado por radicais

Renato Machado, ESPECIAL PARA O ESTADO / BRUXELAS, O Estado de S. Paulo

24 de março de 2016 | 05h00

Uma verdadeira “fábrica de bombas” dos terroristas responsáveis pelos atentados em Bruxelas funcionava em um prédio residencial, na esquina entre duas ruas tranquilas e sem despertar desconfianças dos vizinhos. Foi deste ponto, no distrito de Schaerbeek, que partiram os autores das explosões no Aeroporto Internacional Zaventem.

As forças de segurança belgas encerraram na madrugada de ontem a operação em um apartamento do quinto andar do prédio entre as ruas Max Roos e Maurice des Ombiaux. Foram levadas até lá pelo taxista que havia conduzido os três terroristas e as bagagens com três bombas para o aeroporto.

O procurador federal Frédéric Van Leeuw relatou a existência de um verdadeiro arsenal dentro do imóvel, que havia sido alugado pelos militantes para servir como um quartel-general e uma “fábrica de explosivos”, embora nenhum deles residisse no local.

Foi encontrada grande quantidade de explosivos do tipo TATP, além de estoques industriais de acetona, 30 litros de água oxigenada, detonadores, uma mala repleta de pregos e parafusos e outros materiais para a fabricação das bombas. Aparentemente, todo o processo se dava com discrição, uma vez que muitos vizinhos consideravam que o apartamento estava desocupado.

Dentre os mais surpresos estava a família do colombiano Jhon Jairo Valderrama Navarro. Ele, a mulher e as duas filhas – de 14 e 18 anos – eram vizinhos de porta do apartamento alugado pelos terroristas, desde que chegaram de seu país de origem há um mês para se estabelecerem em definitivo em Bruxelas.

A família estava em casa quando foi surpreendida pela ação da polícia no apartamento vizinho, arrombando a porta e entrando pelas janelas. Poucos instantes depois, os agentes batiam na porta deles, provocando um início de pânico. As filhas ainda estavam de pijamas, quando os policiais ocuparam parte da residência.

“Não fazíamos ideia do que estava acontecendo”, disse Navarro. Ele e as filhas contam que escutavam vozes esporádicas vindas do apartamento ao lado, mas nem sabiam ao certo se havia moradores, se o apartamento estava em reforma. “Dá um certo medo, uma angústia, saber que ao nosso lado estavam os terroristas que fizeram aquelas coisas”, completa.

Outros moradores da região disseram estar igualmente impressionados com o que estava acontecendo. O responsável pela venda de frutas e legumes, do outro lado da rua, afirma que achava que o apartamento estava desocupado, porque nunca abriam a cortina. 

Outro, que se identificou apenas como Morad, destaca que o bairro sempre foi tranquilo. “Eu moro aqui há 40 anos. Esse bairro aqui é muito calmo, tranquilo. Estamos surpresos. É chocante”, disse.

Um colega aproveita para afirmar a uns poucos jornalistas ao redor que os atentados não têm relação com o islamismo. “É a prisão que faz isso com a pessoa e não a religião. Todos já tinham sido presos. Só que eles saem com uma marca, com um ‘cassier judiciare’ (como um atestado de antecedentes) manchado. Aí já estão transtornados pelo tempo preso e se revoltam por não conseguir empregos, por causa dessa condição. São marginais. Não é a religião”, disse o homem, que se identificou como Hassan.


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