Sérgio Castro / Estadão
Sérgio Castro / Estadão

‘O estado de exceção na Venezuela é alarmante'

No Brasil, ativista diz que Maduro pretende encurralar MUD e dificultar realização de referendo revogatório que poderia tirá-lo do poder

Entrevista com

Lilian Tintori

Luiz Raatz, O Estado de S. Paulo

17 Maio 2016 | 05h00

Mulher do líder do partido Voluntad Popular, Leopoldo López, a opositora venezuelana Lilian Tintori voltou ao Brasil nesta semana como parte de uma campanha para pedir a libertação do marido, detido pelo governo do presidente Nicolás Maduro há dois anos e três meses em um presídio militar em Caracas. Ao Estado, Lilian disse que o estado de exceção decretado pelo líder chavista no fim de semana trata-se de uma tentativa de encurralar a coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD) e o plano de revogar constitucionalmente o mandato do herdeiro de Hugo Chávez. A seguir, a entrevista. 

Qual o motivo da sua visita ao Brasil?

Estamos lutando pela liberdade dos presos políticos, viajando pelo mundo e por todos os países da América Latina para levar a mensagem da injustiça que é ter nossos familiares presos. Meu marido está preso a 2 anos e três meses, mas pedimos não apenas a soltura dele, mas de todos os presos: o prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, o prefeito de San Cristobal, Daniel Ceballos e outros presos por denunciar o regime de Nicolás Maduro, que hoje o mundo reconhece que é um regime que destroçou os direitos humanos e a democracia

Você acredita que a mudança de governo aqui no Brasil ajudará na luta de vocês?

Acho que o que vai ajudar nesse sentido é a consciência coletiva mundial. Para que todos digam: o que está acontecendo na Venezuela não pode acontecer mais. Como podemos permitir uma ditadura em pleno século 21, que não haja independência de poderes, que as pessoas tenham fome e não consigam comprar remédios?

Mas já existe algum tipo de contato político com o governo Temer nesse sentido?

Nos temos trabalhado por todo continente sempre falando com todos os governos. Na última visita do presidente da Comissão de Relações Exteriores da Assembleia Nacional (Luis Florido), já estávamos em contato com o governo do Brasil e com outros governos porque precisamos de ajuda. É o pior momento da história da Venezuela. 

Neste fim de semana, o presidente Maduro ampliou o estado de exceção e emergência no país. Qual sua opinião sobre essa medida?

Estou preocupada porque primeiro ele decretou estado de emergência. Não funcionou e agora tenta o Estado de exceção e isso é muito grave porque agora ele pode eliminar as garantias das poucas instituições independentes que restaram, como a Assembleia Nacional, que agora está impulsionando o processo do referendo revogatório. Ele está usando o poder da pior forma: para ir contra a vontade da maioria do povo. Esse estado de exceção é alarmante. 

Então você acredita que essa medida tem como objetivo impedir o referendo revogatório?

Tem como objetivo encurralar os líderes da oposição e suspender as suas garantias. É grave e não é democrático. Desde 5 de janeiro, todas as leis aprovadas pela Assembleia Nacional foram invalidadas pelo governo.   Não há autonomia entre os poderes nem Estado de direito. O Judiciário está controlado por Maduro. Os juízes fazem parte do PSUV. 

Como tem sido o trato a Leopoldo na prisão?

Está cada dia pior. Ele está isolado na solitária de 3 metros x 2 metros. A cela não tem luz. O tiram de lá em poucos momentos, mas sempre com dois soldados armados. Fazem tortura psicológica com ele. Jogam urina na cela. Já o despertaram às 3h da manhã com um fuzil no peito. E cada vez que, internacionalmente, se pronunciam contra a prisão dele, ele é punido na prisão.

A escassez de alimentos e remédios na Venezuela é muito grave. Esse problema afeta a você e sua família de alguma maneira?

Em todas as classes sociais já tiveram que entrar na fila por comida ou por remédios, seja você indígena, jovem ou velho. Na minha casa, por exemplo, não há antibióticos. Se um dos meus filhos ficar doente, não tenho remédios. Aproveitei essa viagem ao Brasil para comprar alguns na farmácia. Na Venezuela, 5 mil mulheres com câncer de mama não tem acesso a tratamento. Quem sofre acidentes de trânsito não tem como ser atendidos nos hospitais. As condições dos hospitais, laboratórios e farmácias do meu país são horrorosas. Por isso começamos a campanha Resgate Venezuelana para arrecadar insumos médicos e levá-los ao país

Você repetidamente denuncia ameaças de morte. Como são essas ameaças?

Veja, Leopoldo está preso há dois anos e três meses e desde então nossa família é perseguida. Eu já sofri dois atentados. Num deles, durante a campanha, um senhor foi morto a dez metros de mim com dez tiros. Me hackeiam os telefones, me perseguem, gravam minha casa com drones. É um acosso constante. Eles querem acossar a oposição para que fujamos do país. Mas nunca faremos isso. Leopoldo jamais deixará a Venezuela. E fazem tudo isso com as esposas de outros presos. Temos de ficar nuas nas revistas. É constrangedor. 

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