'O Estado espanhol não respeita a língua e a cultura dos catalães'

Catalão pretende realizar consulta popular sobre independência da região, mas enfrenta resistência de Madri

Entrevista com

GUILHERME RUSSO, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2013 | 02h05

O maior objetivo do governador da Catalunha, Artur Mas, é consultar os catalães sobre se a região deve ou não se tornar independente da Espanha. O líder diz que a cultura catalã não é respeitada por Madri e acredita que seu "país", com pouco mais de 7,5 milhões de habitantes, se sairia melhor se deixasse de ser território espanhol. A votação sobre a autonomia total dos catalães, porém, é impedida pelo governo central sob a alegação de que todos os espanhóis deveriam participar. A seguir, os principais trechos da entrevista que Mas, de passagem por São Paulo, concedeu ao Estado.

Qual a intenção dessa consulta popular?

Dar continuidade a um pedido majoritário da sociedade catalã, que democraticamente se expressou nas urnas em favor desse processo e também, pacificamente, se expressou nas ruas em favor desse processo.

Como seu governo tem trabalhado nesse sentido?

O primeiro caminho é dialogar e negociar com o Estado espanhol. Uma vez que se vote, veremos se há maioria favorável à independência. Se houver, então, teremos de negociar, com o Estado espanhol e a União Europeia, em que termos se pode chegar a um Estado próprio para a Catalunha.

Qual é a resposta de Madri diante do pedido de diálogo?

Dizem-nos que não há nada o que conversar. Essa posição é rejeitada pela maioria da sociedade catalã. Estamos falando de um movimento radicalmente democrático, absolutamente pacífico. Não se pode impedir para sempre um território, um país, de votar e decidir seu futuro.

Os catalães têm direito a essa consulta?

Direito, creio que sim. Outra coisa é se as leis permitam ou não. É evidente que uma leitura restritiva das leis não permite uma consulta desse tipo. Isso é verdade. No entanto, uma maioria muito importante da sociedade catalã quer votar.

Por que Madri quer impedir a

consulta?

Porque sabe que se a Catalunha votar sobre o tema, passa a ter um status político diferente. O segundo motivo, creio, é porque sabem que poderiam perder.

A Catalunha seria o que é hoje sem a Espanha?

Não. Sempre disse que um dos grandes fatores para o desenvolvimento e o crescimento da Catalunha foi a imigração. E, dentro da imigração, a "imigração" espanhola.

Essa eventual independência não significaria uma espécie de traição dessa herança?

Eu entendo que não, porque, na Catalunha, todos poderiam votar. Então, não haveria nenhum tipo de traição, seria democracia em seu estado puro.

A Catalunha estaria melhor se fosse independente?

Muitos catalães pensam que sim. A Catalunha produz 20% da riqueza espanhola, aproximadamente, e paga

16 bilhões de impostos por ano, que não voltam em forma de serviços e investimentos. O déficit fiscal, a centralização política em Madri e a falta de respeito, até a agressão, às vezes, à língua e à cultura catalã, fazem com que cresça esse movimento na Catalunha.

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