O Estado Islâmico a caminho de Roma

Problema do grupo extremista vai além do Islã e passa por décadas de governança falida no mundo árabe e no Paquistão

THOMAS, FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2015 | 02h01

Os italianos receberam a coisa numa boa. Na semana passada, Adam Taylor, do Washington Post, coligiu tuítes que italianos postaram após um vídeo assassino divulgado pelo Estado Islâmico (EI) advertir: "Hoje, estamos ao sul de Roma". "Conquistaremos Roma com a permissão de Alá", ameaçou o militante islamista.

Quando a hashtag #We_Are_Coming_o_Rome (Nós Estamos Chegando, ó Roma) circulou na Itália, moradores de Roma responderam à altura o desafio. Seus tuítes, observou Taylor, incluíram o equivalente a: "#Nós_Estamos_Chegando_Ó_Roma ahahah Cuidado com o Anel Viário: o tráfego é muito intenso, vocês ficariam presos!"; "#Nós_Estamos_Chegando_Ó_Roma êi só uma dica: não venham de trem, ele está sempre atrasado!"; "#Nós_Estamos_Chegando_Ó_Roma Vocês chegaram tarde demais, a Itália já foi destruída por seus governos"; e "#Nós_Estamos_Chegando_Ó_Roma estamos preparados para conhecê-los! Temos um ótimo terreno no Coliseu à venda".

Os modos assassinos do EI não são uma piada, mas os italianos zombarem do EI é bastante apropriado. Enquanto debatemos exaustivamente a relação do EI com o Islã, esquecemos uma verdade simples sobre muitas pessoas atraídas por grupos assim. É a verdade enunciada por Ruslan Tsarni na CNN após seus dois sobrinhos, Dzhokhar e Tamerlan Tsarnaev, serem acusados pelo atentado a bomba na Maratona de Boston. Eles não passam de dois "perdedores", ele disse, "ressentidos com os que se saíram melhor do que eles e enfeitaram isso com ideologia". "Qualquer outra coisa, relacionada com religião, com o Islã, é uma fraude, é falsa."

Há muita verdade nisso. O EI é constituído por três facções frouxamente ligadas e é preciso compreender as três antes de nos envolvermos mais em outra guerra no Iraque e na Síria.

Uma facção compreende os voluntários estrangeiros. Alguns são jihadistas encruados, mas muitos são meros perdedores, desajustados, em busca de aventuras e jovens que nunca tiveram poder, emprego, a mão de uma garota e entraram para o EI para conseguir as três coisas. Duvido que muitos sejam estudiosos sérios do Islã ou que oferecer-lhes uma versão mais moderada os conservaria em casa. Se o EI não puder oferecer empregos, poder e sexo, esse grupo encolherá.

A segunda facção do EI, sua espinha dorsal, é formada por ex-oficiais do exército baathista sunita e tribos e sunitas iraquianos locais que dão suporte passivo ao EI. Embora os sunitas iraquianos constituam um terço da população do Iraque, eles governaram o Iraque durante gerações e simplesmente não podem aceitar o fato de que a maioria xiita está agora no poder.

Além disso, para muitos aldeões sunitas sob controle do EI, o grupo é menos ruim do que a brutalidade e discriminação que receberam do governo anterior do Iraque liderado por xiitas. Uma pesquisa no Google revelará que o EI não inventou a tortura no Iraque.

Os EUA continuam repetindo o erro no Oriente Médio: superestimando o poder da ideologia religiosa e subestimando o impacto da má governança. Sarah Chayes, que trabalhou por muito tempo no Afeganistão e escreveu um livro importante - Thieves of State: Why Corruption Threatens Global Security (Ladrões de Estado: por que a corrupção coloca em risco a segurança global, em tradução livre) - sobre como a corrupção governamental ajudou a afastar afegãos dos americanos e do regime afegão pró-EUA, argumenta que "nada alimenta mais o extremismo do que a corrupção e a injustiça escancaradas" que alguns dos aliados mais próximos dos EUA no Oriente Médio ministram diariamente a seus povos.

A terceira facção do EI é formada pelos verdadeiros ideólogos, liderados por Abu Bakr al-Baghdadi. Eles têm sua própria versão apocalíptica do Islã. No entanto, ela não repercutiria não fosse o fato de que "tanto a religião como a política foram sequestradas" no mundo árabe e no Paquistão, criando uma "mistura tóxica", diz Nader Mousavizadeh, presidente adjunto da consultoria internacional Macro Advisory Partners.

Os povos árabes foram governados principalmente por radicais e reacionários. Sem a perspectiva de uma política legítima "que genuinamente responda às aflições populares", nenhuma quantidade de tentativas de cima para baixo para estabelecer um Islã moderado terá êxito, diz.

O Islã não tem uma espécie de Vaticano para decretar qual Islã é autêntico, por isso ele se manifesta de maneiras diferentes em diferentes contextos. Há um Islã moderado que surgiu em contextos políticos, sociais e econômicos decentes - como o Islã indiano, o Islã indonésio e o Islã malaio - e nunca ficaram no caminho de seu progresso. E há Islãs puritanos, contrários a uma educação moderna e pluralista, às liberdades femininas, que surgiram dos cantos mais tribais do mundo árabe, da Nigéria e do Paquistão, ajudando a manter o atraso desses lugares.

Moderação. É por isso que o EI não é apenas um problema do Islã. Ele é um produto de décadas de governança falida no mundo árabe e no Paquistão e séculos de calcificação do Islã árabe. As duas coisas se alimentam mutuamente.

Portanto, para derrotar o EI e não ver outro movimento semelhante surgir, é preciso: eliminar sua liderança; convocar muçulmanos para desacreditar as versões muito reais, populares e extremistas do Islã que emergem da Arábia Saudita e do Paquistão; barrar a injustiça, a corrupção, o sectarismo e a falência estatal no mundo árabe e no Paquistão; e arranjar para os sunitas iraquianos sua própria região autônoma no Iraque e uma parte de sua riqueza petrolífera, como os curdos têm.

Eu sei, parece impossível. No entanto, esse problema é muito profundo. Esse é o único caminho para um Islã árabe mais moderado - e também para menos jovens homens e mulheres procurarem dignidade nos lugares errados. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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