O Estado Islâmico e as crianças do califado

Vídeos mostram que grupo radical islâmico recruta crianças e as coloca na linha de frente muito mais cedo do que se supunha

MIA, BLOOM, GLOBAL VIEWPOINT NETWORK, O Estado de S.Paulo

29 Março 2015 | 02h02

Em vídeo chocante do Estado Islâmico (EI), mo dia 10, um menino dispara e mata um preso palestino acusado de ser espião de Israel. O vídeo era parecido com um divulgado pelo EI em janeiro, mostrando um menino cazaque executando dois russos também acusados de espionagem.

Os vídeos refletem duas tendências. A primeira, o papel crescente de crianças na linha de frente do EI. O grupo divulga vídeos de crianças que estão sendo preparadas para ser a próxima geração de combatentes. No entanto, as imagens mostram que elas podem estar sendo usadas muito mais cedo do que se supunha. A segunda tendência é o aspecto multigeracional da violência. Embora seja improvável que crianças possam ser radicalizadas ou que tenham crenças políticas, é plausível que elas sofram uma lavagem cerebral. Isto leva o uso terrorista de crianças ao nível seguinte.

Embora tenhamos observado que grupos terroristas estão cheios de irmãos mancomunados (por exemplo, os irmãos Tsarnaev, Kouachi e as irmãs Berayeva), a evolução de pai para filho numa idade tão nova beira o abuso infantil. Em campos de treinamento do EI, crianças estariam sendo orientadas a decapitar bonecas louras de macacões laranja.

A literatura tem mencionado soldados infantis e o envolvimento de crianças com o terrorismo como sinônimos. Um exame preliminar, porém, sugere diferenças. Recrutar crianças envolve coerção explícita, como sequestro, força armada e uso de drogas. O treinamento para organizações terroristas, por sua vez, é um processo gradual, orquestrado para dar a impressão de que a participação é consensual.

Organizações terroristas historicamente sempre doutrinaram crianças. Muitas criaram movimentos infantis para assegurar a longevidade de seu grupo. Estudos mostraram que todos os grupos terroristas terminam, de uma maneira ou de outra - a maioria não sobrevive além de seus primeiros dois anos. Por isso, eles procuram assegurar sua sobrevivência preparando a próxima geração.

O EI tem operado quase nos moldes de um manual de pedofilia. Durante algumas semanas ou meses, eles gradualmente expõem as crianças a comportamentos aberrantes ou não especialmente infantis. Pedófilos expõem as crianças a materiais pornográficos para dessensibilizá-las e atraí-las para um comportamento sexual. O EI faz a mesma coisa com a violência. As crianças assistem a decapitações, um passo para o envolvimento em execuções.

As sequelas são incognoscíveis. Crianças expostas à violência têm problemas quando crescem, desde distúrbios afetivos à incapacidade de mostrar empatia ou amor. Ex-soldados infantis que sofrem desses problemas são, com frequência, submetidos a programas DDRR (sigla em inglês para desarmamento, desmobilização, reabilitação e reintegração), que empregam uma combinação de abordagens psicossociais e treinamento profissional.

Mas, para isso funcionar com o EI, as crianças precisam ser separadas de uma comunidade que sustenta valores perversos. Até que isso ocorra, não há como escapar da realidade de que o EI que não distingue o bem do mal. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSORA DA UNIVERSIDADE

DE MASSACHUSETTS

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