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O Estado mexicano não vai implodir

O distorcido ponto de vista dos EUA pode ter consequências caras, especialmente para nós da América Latina. A viagem da secretária de Estado Hillary Clinton ao México, nesta semana, marca um bom momento para examinar o conceito equivocado de que o México é, ou está prestes a se tornar, um "Estado fracassado" - como mostrava um documento publicado recentemente pelo Comando Conjunto das Forças Armadas dos EUA. É claro que o país não vai implodir. O México é um Estado tolerante e secular, desprovido de tensões religiosas de países como Paquistão e Iraque. Os movimentos de guerrilha nunca foram uma ameaça real contra o Estado, ao contrário de países como a Colômbia. O México demonstrou uma impressionante capacidade de superar crises, como a repressão do movimento estudantil de 1968 pelo governo, a desvalorização da moeda em 1976, a crise econômica de 1982, o desastre triplo de 1994 - a rebelião zapatista, o assassinato do candidato favorito à presidência e o colapso do peso - e os graves conflitos pós-eleitorais de 2006. Agora, o problema mais agudo é o aumento do poder e da brutalidade do crime organizado - tráfico de drogas, sequestros e extorsões - e o surto de criminalidade comum nas ruas. Essa pode ser a mais grave crise desde a Revolução Mexicana de 1910. Mais de 7 mil pessoas, em sua maioria ligadas ao tráfico de drogas ou à polícia, morreram desde janeiro de 2008. A guerra contra a criminalidade (em especial contra os cartéis da droga) não é uma guerra convencional. Ela pesa sobre todo o país. Trata-se de uma guerra sem ideologia, regras e nobreza. Será que o México pode vencer esta guerra? Podemos progredir ao limitar o alcance do inimigo. Desde que assumiu, em 2006, o presidente Felipe Calderón enviou mais de 40 mil soldados do Exército para vários Estados mexicanos com o objetivo de combater gangues de traficantes, obtendo algumas vitórias sob forma de apreensões de drogas e prisões.Apesar de Calderón manter um índice de popularidade relativamente alto, o governo não foi capaz de transmitir segurança à população em geral. Esta situação não vai simplesmente desaparecer, e os mexicanos precisam ajudar a combater nessa guerra por meio da mobilização da opinião pública, do fornecimento de informações às autoridades e da supervisão vigilante dos funcionários do governo, eleitos ou nomeados.?CANTOS SOMBRIOS?O governo, por seu lado, deve dar prosseguimento à imensa tarefa de limpar os cantos sombrios das suas forças policiais, estabelecendo uma rede de inteligência eficiente para se manter um passo à frente dos cartéis. O México também precisa de um sistema carcerário eficaz, que não sirva como um santuário a partir do qual os líderes condenados dos cartéis da droga possam continuar em atividade, recrutando novos criminosos. Também é vital acelerar a purificação de um sistema judiciário lento e ineficiente no julgamento de delitos graves. Mais cooperação política certamente contribuiria para melhorar esse quadro: Calderón e o seu Partido de Ação Nacional estão, no momento, travando esta batalha sem apoio significativo dos grupos de oposição, o Partido da Revolução Institucional (PRI) e o Partido da Revolução Democrática (PRD). Nossa mídia impressa tem ultrapassado os limites da comunicação necessária e legítima por meio da publicação contínua de fotos retratando os aspectos mais grotescos da guerra contra as drogas, uma prática que, segundo alguns, beira a pornografia da violência. A publicação de fotos de cabeças decapitadas proporciona publicidade gratuita para os cartéis. Isso também contribui com a causa deles ao transmitir aos mexicanos a sensação de que fazem, de fato, parte de um "Estado fracassado".Essa imagem, comprada pelos EUA, é profundamente hipócrita. Os EUA são o maior mercado mundial de narcóticos e fonte da maioria das armas usadas pelos cartéis mexicanos.Washington deveria apoiar a guerra contra os chefões das drogas. O governo de Barack Obama deve admitir a considerável responsabilidade dos EUA pelos problemas do México. Então, respeitando a igualdade e a simetria, os EUA deveriam reduzir o seu consumo de drogas e o seu comércio de armamentos com o México. Não será uma tarefa fácil, mas os EUA contam com uma vantagem: ninguém os considera um Estado fracassado. Da mesma maneira, ninguém tomou Al Capone e as gangues de Chicago como representantes do país. Assim, no caso do México, é melhor manter as caricaturas no âmbito ao qual elas pertencem: nas mãos dos cartunistas. *Enrique Krauze é autor de "México: biografia do poder"

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