O estrago provocado pela tortura

Uso de prática pode, às vezes, levar a informações falsas

John Mccain, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2011 | 00h00

A tão esperada morte de Osama bin Laden abriu um debate envolvendo o uso das chamadas técnicas avançadas de interrogatório contra prisioneiros inimigos: se elas foram ou não instrumentais para determinar a localização de Bin Laden, e se elas consistem num meio legítimo para a obtenção de informações valiosas. Boa parte do debate está relacionada à ideia de tais métodos representarem uma forma de tortura. Acredito que alguns destes métodos podem de fato ser definidos como tortura, principalmente a simulação de afogamento, que consiste numa falsa execução e, portanto, numa forma especialmente cruel de tortura. Assim definidas, tais práticas são proibidas pela lei e pelos valores dos EUA e, pessoalmente, me oponho ao seu emprego.

Sei que aqueles que aprovaram o uso de tais práticas e as empregaram o fizeram com o intuito de proteger americanos. Sei que o fizeram por lealdade às vítimas do terrorismo e para provar aos nossos inimigos que os EUA buscariam implacavelmente a justiça, independentemente de quanto tempo fosse necessário. Não acho que devemos processar aqueles que se envolveram no uso de tais técnicas, e concordo que o governo deveria afirmar claramente que isso não vai ocorrer. Sou um dos autores da Ata das Comissões Militares e, no texto desta lei, escrevemos que ninguém envolvido na aprovação ou no emprego destas técnicas de interrogatório antes da sua aprovação seria processado. Não acho que seja útil nem sábio revisar esta medida.

Mas este deve ser um debate informado. O ex-procurador-geral Michael Mukasey afirmou recentemente que "a trilha das informações que levaram ao paradeiro de Bin Laden... começou com uma revelação feita por Khalid Sheik Mohammed, que não resistiu à pressão das rigorosas técnicas avançadas de interrogatório e cantou feito um passarinho. Ele revelou uma verdadeira torrente de informações, entre elas o apelido de um mensageiro de confiança de Bin Laden". Isso não é verdade.

Pedi ao diretor da CIA, Leon Panetta, que me revelasse os fatos, e ele me contou o seguinte: a trilha que levou a Bin Laden não teve início com as revelações de Khalid Sheik Mohammed, que foi submetido a 183 simulações de afogamento. A primeira menção a Abu Ahmed al-Kuwaiti - apelido do mensageiro da Al-Qaeda que acabou nos levando a Bin Laden -, bem como a descrição de que ele seria um membro importante da Al-Qaeda, foi feita por outro prisioneiro mantido num outro país, e acreditamos que ele não tenha sido torturado. Nenhum dos três prisioneiros que foram submetidos a simulações de afogamento revelou o nome verdadeiro de Abu Ahmed, ou sua localização, nem fez uma descrição fiel do papel desempenhado por ele na organização.

Na verdade, o uso das "técnicas avançadas de interrogatório" em Khalid Sheik Mohammed levou a informações falsas e deliberadamente incorretas. De acordo com os membros da Comissão de Espionagem do Senado, as melhores informações obtidas de um prisioneiro da CIA - informações que detalhavam o verdadeiro papel desempenhado por Abu Ahmed al-Kuwaiti na Al-Qaeda e seu real relacionamento com Bin Laden - foram obtidas por meios normais, não coercitivos. Sei por experiência própria que o abuso de prisioneiros às vezes leva a informações importantes, mas, em geral, tem como resultado informações erradas, pois, submetida à tortura, uma pessoa dirá qualquer coisa que o torturador quiser ouvir - verdadeira ou falsa - se acreditar que isso a poupará do sofrimento.

Apesar de terem sido necessários dez anos para que encontrássemos Bin Laden, há um consolo no longo período em que ele viveu como fugitivo da justiça: o líder da Al-Qaeda pôde testemunhar aquilo que está sendo chamado de primavera árabe, um movimento de completo repúdio à sua ideologia violenta.

Enquanto debatemos a melhor forma de os EUA influenciarem o rumo da primavera árabe, não seria possível concordar que o melhor a fazer é dar o exemplo de um país que coloca os direitos humanos de um indivíduo acima dos desejos da maioria ou do governo? Todos estes argumentos têm ao seu lado a força do direito, mas isso vai além da questão mais importante. No fim, trata-se de um debate que ultrapassa a fronteira do utilitário. É um debate moral. Um questionamento de quem somos.

Não lamento a perda da vida de nenhum terrorista. Mas lamento aquilo que perdemos quando, seja por determinação oficial ou por negligência do governo, confundimos ou encorajamos aqueles que travam essa guerra em nosso nome a esquecer nossas melhores características. Em meio à violência, ao caos e à dor da guerra, superando a privação, a crueldade e as perdas, somos sempre americanos, diferentes, mais fortes e melhores do que aqueles que almejam nos destruir. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É SENADOR REPUBLICANO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.