O estrangulamento do processo de paz

A paz só será possível se Obama convencer Israel a interromper os assentamentos na Cisjordânia ocupada

O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h05

Análise

Desde a Segunda Intifada, em 2001, o processo de paz israelense-palestino entrou em colapso. Os fracassos da última década devem ser traduzidos à luz de três axiomas fundamentais: o não rompimento de Washington com sua parcialidade histórica em relação ao conflito; o frágil equilíbrio de forças das coalizões que sustentam os sucessivos governos israelenses desde o assassinato de Yitzhak Rabin, em 1995; e a divisão interna entre as principais forças palestinas.

Responsável por reativar as negociações, o Quarteto (EUA, Rússia, ONU e União Europeia) falhou ao não conseguir levar Israel a retomar as conversações de paz. Não logrou apresentar propostas objetivas para questões fundamentais, como fronteiras, refugiados, alastramento dos assentamentos ilegais nos territórios palestinos ocupados e o status de Jerusalém Oriental, o que conduziu os palestinos a recorrerem à via unilateral e à ONU como únicos caminhos de salvaguardar e proteger sua autodeterminação.

Entretanto, a histórica vitória na ONU contra o imobilismo diplomático em torno do processo de paz, conjugada à enfática condenação moral ao Estado de Israel pela transgressão às normativas internacionais, produziram reações exasperadas por parte do governo do premiê Binyamin Netanyahu: a ampliação dos assentamentos ilegais na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental e o congelamento do repasse de impostos devidos à Autoridade Nacional Palestina.

Tais ações não apenas constituem uma provocação direta ao povo palestino e um grave desrespeito à comunidade internacional, mas poderão produzir consequências negativas, como reações violentas por parte do Hamas e do grupo Jihad Islâmica, aprofundamento do isolamento do Estado de Israel, não apenas no contexto regional, mas global, e acirramento da divisão sociopolítica no seio da sociedade israelense.

A zona de conforto não mais existe para Israel no plano regional. O fortalecimento operacional e logístico do Hamas, conjugado ao contundente e duro posicionamento do Egito de Mohamed Morsi, projetam um cenário desfavorável para Israel.

Ao atacar Gaza, Netanyahu buscava reforçar sua popularidade e imobilizar os partidos de oposição, ávidos para explorar as mazelas de seu governo. O premiê tenta converter a campanha eleitoral num embate constrito à questão de segurança, impedindo discussões sobre a crise econômica e o processo de paz, flancos mais fracos de sua gestão, prontos a serem explorados pelo Kadima, principal partido opositor.

A retaliação imposta aos palestinos visava, fundamentalmente, à contenção da migração de votos da classe média e dos movimentos ultranacionalistas, numa tentativa de recuperação política diante das massas de Israel. O premiê israelense não quer parecer fraco diante dos religiosos e dos colonos assentados na Cisjordânia, base eleitoral do atual governo e defensores do princípio da não devolução dos territórios ocupados.

Por outro lado, essas iniciativas criam um complexo obstáculo no bojo da infindável relação israelense-americana. Para o governo Barack Obama, defender Israel a todo custo passa a ser uma tarefa muito cara e comprometedora quanto aos interesses dos EUA na região. Além disso, a diplomacia do governo Netanyahu conseguiu isolar o país ao afastar de sua órbita importantes interlocutores na região, como Egito, Turquia e Jordânia.

Ao prescindir dos egípcios no plano regional, Israel abre mão da legitimidade e da interlocução que o governo Morsi conseguiu estabelecer para convencer o Hamas de que o pragmatismo é a via mais segura para a construção do Estado Palestino. É inviável a tese de um Israel seguro com contínua fragmentação do território palestino. A mudança desse quadro dependerá, exclusivamente, da determinação de Obama de persuadir o futuro governo israelenses a paralisar sua política de colonização.

Conforme o curso dos acontecimentos, uma alteração real na geometria do processo de paz só seria meta alcançável na aplicação de sanções econômicas ao Estado de Israel pelo desrespeito à legalidade internacional. A paz ditada e o estrangulamento político são os condimentos certos para o fracasso do processo de paz.

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